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sábado, 7 de dezembro de 2013

Oh, la Belle! Oh la Bête!

Fera (Marais) e Bela (Day) e o castelo mal assombrado


Ah, os filmes de antigamente... Com as donzelas em perigo e enfatizando seu desespero com as mãos sobre a testa, e garbosos cavaleiros brilhantes vindo para resgatá-las - mesmo que, nesse caso, o tal cavaleiro tenha um pouco mais de pelos no corpo. A Bela e a Fera (La belle et la bête, 1947) é uma ode ao romantismo na visão de Jean Cocteau. Mas não da forma como nós nos acostumamos a ver por aí, com muita água com açúcar. No fundo, a versão do diretor se manteve fiel ao espírito de "lição de moral" que os contos de fada de antigamente traziam.

O pai de Bela (Josette Day), é um mercador que tem seus negócios arruinados por dívidas. Ele vive com seus quatro filhos, Ludovico (Michel Auclair), Felícia (Mila Parély), Adelaide (Nane Germon) e Bela (Josette Day). Voltando frustrado de uma negociação, acaba por se perder no caminho e encontrando por acaso a mansão da Fera ( Jean Marais). A mansão parece desabitada, mas o calor da lareira e o banquete parecem convidativos. Quando ele decide levar daquele castelo uma rosa do jardim, a Fera em pessoa aparece e o condena a morte por roubar a coisa mais preciosa dele. Desesperado, ele tenta barganhar por sua vida. Então a Fera propõe que ele substitua sua pena pela entrega de um de seus filhos, que ficará com ele para sempre. O pai de Bela concorda, apenas para fugir dali. Em casa, com pena do ocorrido com o seu pai e se sentindo culpada (pois fora ela quem pediu a rosa), Bela se propõe a ir cumprir a pena de seu pai.

Fera (Marais): versão assustadora
Aí é a história que a gente conhece. A Fera se apaixona por Bela e, de seu modo torto, tenta agradá-la. A mantém prisioneira, mas espera que ela se apaixone por ele da mesma forma que ele se apaixonou por ela. Bela, a princípio, não está muito disposta a amá-lo, principalmente porque está apaixonada por Avenant (Jean Marais, isso já é alguma pista?). Aos poucos, ela começa a perder o medo da Fera - que, por sua vez, parece ter medo dela também. Então eles passaram a a passear antes da janta, e a se conhecer melhor. Foi assim que Bela ficou sabendo da magia do castelo, habitada por estranhos objetos meio humanizados (que dão a entender que foram pessoas que também adentraram os domínios da Fera e acabaram ali, para sempre, como forma de punição pelo seu crime) e alguns dos artefatos místicos pessoais. A luva, o cavalo, o espelho: toda a magia que vinha daquele estranho mausoléu de Diana. Ele estava dando o melhor de tudo para ela, mas ainda assim ela estava infeliz: seu pai estava doente e não saía de seus pensamentos. Foi assim que a Fera fez o maior dos sacrifícios: deu a Bela a oportunidade de voltar para visitar o pai, abrindo mão de sua luva mágica (o que o enfraqueceu). Bela voltou, viu seu pai acamado e seu irmão e irmãs planejaram voltar para o castelo da Fera, a fim de matá-lo e tomarem conta do castelo cheio de riquezas.

Pressentindo o perigo, voltou para o castelo somente a tempo de ver a Fera morrer - sua principal fonte de magia, o mausoléu da Diana, estava sendo atacado por Avenant e Ludovico. Avenant se arrisca a descer, louco para se apropriar das riquezas do local, mas a estátua da Deusa da Caça está viva e o mata assim que ele joga o corpo para dentro. Assim, Avenant se transforma na Fera e cai morta, dentro do mausoléu, e a Fera retorna à vida, com a aparência de Avenant. Bela, obviamente, fica duplamente feliz: a Fera voltou a viver e agora ela está apaixonada por ela, que tem a exata aparência de seu antigo amado. Então, eles vivem felizes para sempre.
Bela (Day) e o castelo mágico: construção de cenário uma tanto pobre, porém funcional
Engraçado que (acostumada à versão atual e, principalmente, à animação da Disney) a gente estranha quando vê Bela com duas irmãs más e um irmão bêbado - pelo menos na minha cabeça, era só ela e o pai velhinho. Me lembrou muito outro conto de fadas, o da Cinderela, em que as irmãs invejosas maltratam a futura princesa por pura inveja e maldade. Outro ponto fundamental que foi diferente, a magia da Fera. Como assim a Deusa Romana da Caça tem a ver com a história da Fera enclausurada? É ela toda a fonte da magia. Uma coisa que eu achei sensacional foi a humanização das coisas do castelo. Aquilo é de arrepiar! Lembrou bem o espírito de assombro que os contos infantis tinham, porque eles assustavam de verdade para ensinar dos perigos da vida. Os efeitos são bem legais, soluções visuais bastante inteligentes para os recursos da época. A construção do castelo da Fera foi inteligente cenicamente, mas lembrava muito um palco de teatro sem muitos recursos: faltou glamour.

Mas apesar dessas coisas todas, eu não consegui curtir tanto o filme. Vale assistir como uma curiosidade, mas não mais do que isso. O ritmo, lento demais, e a forma por demais engessada de atuação (além de toda a confusão com a comparação com outras versões) o fazem um tanto chato, embora nunca desinteressante. Outra coisa que não ficou muito clara pra mim foi a tal "moral da história". Afinal, Bela até se aceitou viver e cuidar da Fera, mas só ficou feliz e apaixonada mesmo quando ele se transformou no cara lindo pelo qual ela era apaixonada antes - e não é bem isso o que a história realmente ensina (dinheiro não traz felicidade, descobrir que as pessoas são bem mais do que parecem ser, o amor não leva em consideração a aparência, etc.). No fundo, no fundo... Acho que eu senti falta do Lumière.

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