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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Jumanji – Bem-vindo à selva

Uma das primeiras estreias de 2018, Jumanji – Bem-vindo à selva! (Jumanji: Welcome to the jungle, 2017) é um reboot divertido do clássico infantil de 1995. Sem Robbie Williams para encabeçar o elenco, a produção aposta no carisma de Dwayne "The Rock" Johnson e Jack Black para atualizar a estória do jogo de tabuleiro que é mais do que uma brincadeira de criança. Com ação, aventura e bom humor bem equilibrados, o longa cumpre o que promete: diverte e entretém, sem compromisso.

Estamos nos 1990 e um pai desavisado acaba encontrando a caixa do jogo meio enterrada na areia da praia. Ele decide levar o brinquedo para o filho adolescente, que pouco dá importância para o presente – afinal, a era dos videogames havia chegado. De noite, o jogo magicamente se transforma e o jovem se vê tentado a jogar. Algo sinistro acontece e temos um salto no tempo. 

Spencer (Wolf), Fridge (Blain), Bethanny (Iseman) e Martha (Turner): prestes a entrar em Jumanji
No tempo presente, um jovem nerd finaliza um trabalho para outro colega de turma, um atleta promissor com problemas nas notas. Uma jovem tímida acaba desrespeitando uma professora durante a aula de Educação Física e outra não consegue largar o celular nem mesmo durante a prova em sala de aula. Resultado: os quatro acabam na detenção. E é assim que Spencer (Alex Wolf), Fridge (Ser'Darius Blain), Martha (Morgan Turner) e Bethanny (Madison Iseman) acabam se juntando – e encontrando o videogame Jumanji.

Burlando as regras do castigo, eles iniciam uma inocente partida escolhendo a esmo um perfil para jogar Jumanji – que eles não faziam ideia do que se tratava. Após todos terem um personagem, eles acabam sendo sugados para dentro da máquina e “logam” como os avatares de seus personagens escolhidos. Assim, Spencer torna-se o explorador Dr. Bravestone (The Rock), Fridge é Moose Finbar (Kevin Hart), um biólogo que mais parece uma enciclopédia, Martha ficou com a sexy lutadora Ruby Roundhouse (Karen Gillian, de Doctor Who e Guardiões das Galáxias) e Bethanny terminou como o Shelly Oberon (Jack Black, perfeito), um geógrafo experiente. 

Finbar (Hart), Ruby (Gillian), Bethanny (Black) e Bravestone (The Rock): os avatares
O grupo aos poucos descobre como funciona o jogo: suas próprias habilidades, as regras do jogo, quais missões tem que cumprir, quais perigos terão que enfrentar e, principalmente, que se eles não conseguirem terminar a missão, eles ficarão perdidos na selva para sempre. Então eles precisam aprender a trabalhar em grupo – para isso, terão que superar seus medos e resolver problemas do mundo real nesse novo mundo digital retrô e selvagem. 

Jumanji – Bem-vindo à selva consegue, de forma divertida, fazer uma homenagem ao brincar com a nostalgia dos anos 1990, época em que o primeiro longa foi lançado. A tecnologia antiga e a forma como o jogo se desenrola são bastante bem resolvidos e convincentes para um jogo de tabuleiro adaptado para um videogame antigo. A produção impecável traz o clima certo de filme de aventura e o elenco, tanto juvenil quanto adulto, dão conta do recado. Mas o destaque fica mesmo para The Rock e Jack Black: o primeiro sabe muito bem como tirar sarro de si mesmo, e Black não exagera na bizarrice ao interpretar uma adolescente patricinha com os hormônios à flor da pele no corpo de um gordinho de meia idade. De longe, os dois são os destaques do filme – que provavelmente seria apenas mais um se não fosse a presença dos dois. 

The Rock é um dos destaques do filme como Dr. Bravestone, o alter-ego de Spencer
Gillian também está divertida como a desajeitada adolescente no corpo de uma “ninja”, mas Hart está um pouco over – como é o estilo dele. Fazer piadas sobre sua baixa estatura ou falar gritando o tempo todo é como ele ganha a vida, e só por isso eu gostaria de vê-lo dar uma aliviada (exatamente como The Rock e Jack Black fizeram neste longa). A pequena participação de Nick Jonas é importante para a trama, mas ele também não fez muita diferença no resultado final. 

Kevin Hart faz piada com seu tamanho. O tempo todo. E nem é tão engraçado assim.
No mais, o filme é divertido e vale a pipoca. Tem lá seus exageros digitais e piadas nem tão engraçadas para nós, brasileiros, mas... Dá para passar. Não deve desagradar aos fãs mais ferrenhos do longa original (se bem que está cada vez mais difícil fazê-los felizes, não é?...) e pode ser uma grata surpresa para quem não espera muita coisa dele. Uma boa pedida para o finzinho das férias escolares: pais e filhos devem aproveitar as boas risadas antes de voltar para a rotina pós- festividades. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Rei do Show


O Rei do Show (The Greatest Showman, 2017) narra a trajetória de P. T. Barnum (Hugh Jackman) de um simples filho de alfaiate a um dos maiores nomes do entretenimento nos Estados Unidos do século 19. Motivado pelo fato de sua paixão de infância e futura esposa Charity (Michelle Williams) vir de uma família rica, ele quis se tornar um grande homem na sociedade para lhe dar todo o conforto que merecia - e também para se provar ao sogro, que não aprovava a relação por ele ser pobre.

A família Barnum: depois das dificuldades, a fartura
Barnum se aproveita dos limões da vida para fazer suas limonadas: pulando de emprego em emprego, consegue sustentar a esposa e as duas filhas, Caroline (Austyn Johnson) e Helen (Cameron Seely). Quando é demitido, porém, de seu último emprego, surge uma oportunidade. Valendo-se de uma manobra (em bom português, fraude), consegue um bom empréstimo no banco para financiar seu sonho: construir um museu de raridades (leia-se "esquisitices"). Os negócios, porém, vão mal das pernas pois ninguém parece tão entusiasmado quanto ele e suas meninas com a ideia. Da sugestão de uma delas nasceu a fagulha: ele precisava de coisas vivas naquele lugar.

Lettie (Settle) encabeça o grupo dos artistas recrutados por Barnum
A família se pôs à caça de talentos (ou nem tanto) que fossem únicos, pessoas geralmente excluídas da sociedade por suas características físicas para torná-las estrelas de seu inusitado show. A princípio relutantes, elas aceitam e acabam encontrando forças para encarar a sociedade de frente - muitos pela primeira vez a vida. O show torna-se um sucesso de público, mas enfrenta resistência da crítica e dos preconceituosos. Barnum, porém, não esmorece: continua tentando ampliar seu negócio, e arruma uma inusitada parceria com Phillip Carlyle (Zac Efron) - um bom produtor de teatro, que tinha clientes ricos porém insatisfeitos com seus espetáculos. Agora, parece que o céu é o limite para o império de Barnum - mas não é bem assim que as coisas acontecem.

Carlyle (Efron) e Barnum (Jackman): melhor sequência do musical
Apesar do visual caprichado - e aqui incluo uma fotografia belíssima, figurinos e caracterizações muito bem executados, além de uma rica direção de arte - o filme não me cativou. A empolgação alheia (reação da maioria que assistiu à mesma exibição que eu) foi diretamente proporcional à minha decepção. Apesar do carisma de Jackson, Williams e Efron, do clima de fantasia que permeia todo o longa, tudo é meio morno, afobado e tediosamente previsível. Para um filme com cara de espetáculo da Broadway, ficar parecendo filme pipoca da Sessão da Tarde foi um resultado até bom. Me incomodou bastante também a sensação de que o diretor Michael Gracey queria provar para nós, espectadores, que ele podia fazer um novo Moulin Rouge - só que ele passou longe da genialidade de Baz Luhzman aqui. Já estamos acostumados com as coreografias modernas, mas em alguns números a dança parecia apressada demais para o clima da cena.

Falta delicadeza para cantar e dançar com poesia o amor desses dois
Há muitos excessos e muitas faltas. Excesso de efeitos especiais (os animais do circo ficaram bem falsos), de condescendência pelo personagem principal (ele ganhou a vida ludibriando os outros), de músicas repetitivas (fora dois números realmente empolgantes, todas as outras músicas pareciam a mesma), excesso de músicas dubladas bem coreografadas (já vi lipsyncs melhores em programas de TV...). Mas o pior foi o que faltou: não há espaço para dar dimensão aos outros personagens. Os artistas - aqueles que deveriam ser exaltados no palco - foram esquecidos até na tela (pareciam apenas o corpo de baile ao invés dos protagonistas do show de Barnum), o romance dos astros teen Zendaya e Zac Efron não convence (e ainda fica só de raspão a crítica ao preconceito ao amor inter-racial)... Faltou alma ao filme, mesmo que seus atores tenham se empenhado para fazer um grande espetáculo.

Zendaya convence no drama, mas romance da personagem não empolga
Ok, admito que gostei e muito de ver Zendaya cantando e em cena (e o máximo que eu sabia dela era que era protagonista de um seriado infantil da Disney) e que ela provou que tem muito potencial dramático, mas só o carisma dos atores definitivamente não funcionam para salvar um roteiro fraco. No fim, a sensação é de que eu também fui ludibriada por Barnum e assisti a um de seus shows fraudulentos. No fim das contas, dá até para assistir - e eu duvido que você consiga sair sem cantarolar as músicas - mas O Rei do Show está longe de ser um dos melhores do seu gênero. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Extraordinário

Extraordinário (Wonder, 2017) é daqueles filmes família que pegam a gente desprevenido. Seria de se esperar que num longa que narra a adaptação de um menino de 7 anos que nasceu com uma deformidade ao mundo houvesse muitas lágrimas (e elas vêm, não se preocupem), porém o tom do filme é totalmente positivo e otimista. Baseado no best-seller de R. J. Palacio, ganhador do prêmio Mark Twain Readers Award (voltado para o público infanto-juvenil), a história de Auggie é uma lição de amor ao próximo como pouco se vê.


Auggie (Jacob Tremblay, de O quarto de Jack) é um menino como outro qualquer: adora brincar e sonha ser astronauta. Ele também é muito sortudo, pois vive com a família em uma casa bonita e todos ao seu redor o amam incondicionalmente. Acontece que Auggie não é um menino comum: por causa de uma má-formação congênita, desde bebê ele preciso passar por diversas cirurgias que salvaram sua vida - porém não conseguiram trazer ao pequeno uma aparência normal. Dentro de casa ele recebe o apoio dos pais, Nate (Owen Wilson) e Isabel (Julia Roberts), da irmã Via (Izabela Vidovic) e até da cachorrinha Daisy. Mas ele tem péssimas experiências com o mundo fora daquela bolha familiar.

Auggie (Tremblay) indo para a escola pela primeira vez: capacete e apoio da família para se sentir mais confiante
Auggie tem uma imaginação muito fértil e é muito inteligente para sua idade - sua mãe havia se dedicado à sua educação em casa, mas agora ele precisava encarar uma nova etapa: ir para uma escola regular. Apesar de assustado, Auggie recebe o incentivo da família e o apoio do diretor da escola, o Sr. Tushman (Mandy Patinkin) - cuja tradução de nome para Sr. Buzanfa é sensacional - e o professor Browne (Davee Diggs). Alguns alunos foram selecionados para ajudá-lo na adaptação antes das aulas começarem, como o riquinho Julian (Bryce Gheisar), a mini esrela Charlotte (Elle McKinnon) e o bolsista Jack Will (Noah Jupe). 

A jornada de amadurecimento de Auggie é fascinante e emocionante, além de obviamente ser o foco da história. E é aí que o filme surpreende: o universo dele não se resume apenas à sua perspectiva, mas à dos outros jovens que passam na sua vida e como o mundo deles foi afetado pela presença de Auggie. Aliás, nem só dos jovens: a pequena participação de Sônia Braga (quase relâmpago, diga-se) parece reforçar a ideia do quanto todos precisam de atenção - e não só o pequeno. A tênue linha que separa o normal do extraordinário é explorada em diversas nuances e ângulos, o que torna essa estória uma delícia de acompanhar ao invés de um possível sofrimento melodramático nível hard.

Mr. Tushman (Patinkin): a prova de que ninguém é imune à ridicularização
É interessante perceber que somos levados a reparar no que é invisível, como a dedicação da mãe que interrompe todos os planos da vida para ajudar o filho, a filha que não sabe bem onde se encaixar na dinâmica familiar pós-Auggie, os amiguinhos que aprendem a lidar com o diferente a seu jeito. Tudo isso regado a muito bom humor. Não é que você vá gargalhar de sair com a barriga doendo, mas algumas situações são realmente divertidas - algumas tiradas das crianças são impagáveis, e muitas situações corriqueiras também deixam o espírito mais leve e ajudam a equilibrar os momentos mais pesados. Inevitável ficar com o coração apertado ao ouvir Auggie expressar sua angústia por causa do preconceito, ou a sensação de estar sempre em segundo plano na vida dos pais como acontece com Via.

Os dilemas humanos e universais de aceitação e pertencimento são tratados nas entrelinhas - e o maior mérito de tudo é saber que as crianças serão capazes de apreender isso pela lição de vida que é a história de Auggie. Também é um alívio ver que ainda é possível tratar de temas tão delicados como preconceito com tanta naturalidade e leveza, sem nenhum tipo de discurso de ódio. Naturalidade, aliás, parece ser o fio condutor do longa: é normal ser diferente, é normal ficar deslocado de vez em quando, é normal retomar a vida quando temos a oportunidade. Fica quase impossível não se apegar à família Pullman e a forma doce e amorosa como eles enfrentam os desafios juntos. Um reforço e tanto no discurso do perdão e da empatia, tão necessário em tempos extremados como enfrentamos atualmente. Um filme tipicamente natalino e americano, mas sem aquele ar piegas e clichê de neve, milagre de natal e sentimentalismo barato.

Auggie e Nate (Wilson): nem tudo é sobre a condição do garoto
Desde a produção de arte até a escolha do elenco, tudo nesse filme é acertado. A pesada maquiagem que o pequeno Tremblay usa para desfigurar seu rosto é um acerto duplo: por ficar tanto tempo no ar, ela precisa ser no limite do visual agradável aos olhos e deixar que o talentoso ator mirim consiga se expressar - e ela permite ao público ter empatia com Auggie e que Jacob brilhe em sua interpretação. As crianças, aliás, são um achado. Todas, mesmo as que pouco interagem com Auggie, dão conta de interpretar sentimentos muito intensos como empatia e preconceito de forma natural. Há passagens hilárias e bastante nerd, e combinam com a personalidade especial do personagem principal.

Jack Will (Jupe) e Auggie: elenco mirim dá show de interpretação e simpatia
Definitivamente, Extraordinário tem tudo para agradar ao público. É filme para levar a criançada e depois debater com elas, mostrar que é possível vencer o preconceito e fazer a vida de todos muito mais feliz - ou menos difícil. Simplesmente imperdível, é para se divertir e se emocionar: não esqueçam dos lencinhos! 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso Oriente

Kenneth Branagh quis fazer de seu remake de Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, 2017) um filme grandioso e, de certa forma, conseguiu. Mas, assim como no livro de Agatha Christie, a gente não pode ignorar a complexidade que é trabalhar tantos personagens ao mesmo tempo. Nesse sentido, as quase 2h de filme são necessárias - porém, mal distribuídas. Ainda assim, o longa tem um visual deslumbrante e um Poirot divertido na medida certa para o filme funcionar.

Poirot (Branagh) precisa de férias e seu amigo Bouc (Tom Bateman) decide arrumar um tempinho para ele descansar: seu trem, o Expresso Oriente, partirá de Istambul até Londres, e ele presenteou o amigo com uma viagem para descansar. O que nenhum dos dois contava era com os imprevistos no meio do caminho. Entre duas paradas, o trem acaba preso nos trilhos por um deslocamento de neve causado por uma tempestade. Após o inconveniente, Poirot e Bouc precisam lidar com uma outra - e mais grave - situação: durante a madrugada, um passageiro foi assassinado dentro de sua cabine.

Hercule Poirot (Branagh) e o Expresso Oriente
Apesar de estar de folga, Poirot acaba cedendo ao pedido do amigo para investigar o caso. Certificando-se de que o vagão onde ocorreu o crime estava isolado na noite do crime, ele começa a interrogar os suspeitos - ou seja, todos os outros passageiros do trem. E é a partir dos interrogatórios que começamos a conhecer os personagens - e onde o filme encontra seus problemas. Ao todo, são 12 suspeitos para um assassinato. Desvendar uma rede de segredos e mentiras nos livros é mais fácil porque, a qualquer momento em que a gente fique perdido, é fácil voltar algumas páginas e sanar a dúvida. Mas como fazer isso num filme onde não dá para voltar e checar a informação perdida? Pois é. Assim, alguns personagens ganharam um certo destaque e outros acabaram "clipados" juntos, e quem não estiver bem atento vai acabar se confundindo ali. Mas, nada de desespero, porque tudo acaba tendo um final muito bem explicado.

Poirot interroga a Srta. Debenham (Daisy): apresentações de alguns personagens ficou comprometida
Fora esse detalhe importante, de resto o filme é bem interessante - ou seja, mesmo se você ficar confuso, não desistirá de assistir até o final e tampouco se decepcionará com ele. Aliás, uma grande qualidade do filme é apresentar o personagem Poirot para as novas gerações, assim como a mente engenhosa de Agatha Christie que criou essa pérola das histórias de detetive. Uma verdadeira constelação foi escalada para dar vidas aos personagens de Christie: Judi Dench, Willem Dafoe,  Michelle Pffeifer, Johnny Depp, Penélope Cruz são apenas alguns dos rostos que você verá aqui e todos apresentam um trabalho correto. De certa forma é meio decepcionante que seja apenas "correto" - mas é o mínimo que se espera de estrelas desse porte.

Josh Gad e Johnny Depp: estrelas no elenco e luxo na produção são a marca desse filme
Os verdadeiros aplausos vão para o roteiro (que introduziu suavemente questões - infelizmente - ainda atuais de racismo e preconceito), a luxuosa produção de arte e figurino (que trouxeram todo o glamour da década de 1930) e para a fotografia engenhosa (que teve que lidar com alguns cenários bem apertados dentro do trem sem que causasse sensação de claustrofobia em momento algum). O visual deslumbrante e o divertido Poirot criado por Branagh, que é bem mais espirituosos do que insuportável, valem o ingresso do cinema. Ao final, a sugestão de uma nova aventura do detetive é mais do que bem-vinda: gostei bastante dessa viagem no Expresso Oriente; agora só falta saber o que Poirot precisará desvendar no Egito... 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A vilã

A vilã (Ak-Nyeo, 2017) é um ótimo - e sanguinolento - filme sul-coreano de Byung-gil Jeong. Narrando a estória de um assassina em série que ainda precisa pagar uma dívida com sua organização para finalmente ser livre e fugir do seu passado, o longa é empolgante do início ao fim. As alucinantes sequências de ação são intercaladas com um drama denso como só o cinema asiático é capaz de produzir, embora alguns espectadores mais atentos consigam descobrir o grande segredo antes dele ser revelado.


Já de cara o filme mostra a que veio: em uma empolgante sequência de assassinatos em um clube de mafiosos parece saída diretamente de um videogame. Só o que vemos é a fúria de um assassino habilidoso e os inimigos se aproximando e sendo abatidos em série, da perspectiva do próprio assassino. Só mais para o fim da longa cena é que vemos o rosto de Sook-hee (Ok-bin Kim, excelente). Logo após o evento, a jovem é levada para uma espécie de hospital e lá é submetida a cirurgia plástica que muda seu rosto. O tempo todo ela é monitorada, e logo descobrimos porquê.

Sook-Hee (Ok-bin) em treinamento
Por ser considerada acima da média, Sook-hee é preciosa para a organização de assassinos que a resgatou. Sabendo que não poderiam detê-la, propõem um acordo: ela deveria cumprir algumas missões e dentro de 10 anos ela estaria completamente livre, com idade trocada e o passado apagado para que tivesse direito a uma vida completamente nova. Ela aceita, porém o que ela não sabe é que mesmo livre ainda estaria sendo monitorada. Hyun-soo (Sung Joon) ficou encarregado de vigiar Sook-hee até conseguir sua promoção, mas os sentimentos que ele tem por ela podem atrapalhar os planos de todos - principalmente quando as mentiras contadas à ela começam a cair num efeito dominó devastador.

Hyun-soo (Sung): dividido entre o dever e o coração
A trama baseada em vingança é um tema recorrente, mas a forma luxuosa como a história de Sook-hee foi contada faz toda a diferença. Entremeando flashbacks e lutas sangrentas em ritmo acelerado, o longa não cansa o espectador. Todas as perguntas que surgem são respondidas a seu tempo, e você se pega torcendo pela protagonista mesmo sabendo dos horrores que ela é capaz de fazer. No fundo, a gente torce pelo final feliz de princesa Disney para ela mesmo sabendo que a vida não é assim tão generosa - nem mesmo dentro das telas. Há uma sugestão de que pode vir uma sequência para esse filme, mesmo que a trama tenha sido concluída - e confesso que adoraria ver o que mais vai acontecer.

Início da sequência final: sangue e alta velocidade
A escolha acertada do elenco é um ponto-chave para o resultado bem sucedido, assim como a interessante fotografia que alterna os pontos de vista e traz o espectador para dentro das cenas de ação. Se pensarmos que este é apenas o segundo filme do diretor, é algo realmente admirável. Para quem está cansado da mesmice dos filmes de ação de Hollywood, A Vilã é uma alternativa imperdível.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça


As expectativas estavam altas para esse Liga da Justiça (2017) - principalmente por causa do medo da repetição dos fiascos de crítica de Batman vs Superman : A origem da Justiça (2016) e Esquadrão Suicida (2016). De fato, eu mesma tinha minhas dúvidas do que eles poderiam fazer para consertar as burradas nos filmes de 2016, mas parece que as coisas começaram a se acertar com Mulher Maravilha (2017) e, ao que parece, continuam a trilhar um bom caminho - e prometem muito mais na sequência.

Seguindo rastros de um mal maior
Ainda no espírito de “juntar o time”, a trama principal precisou ser um pouco mais resumida: vemos o Batman (Ben Affleck) no rastro de um enigma: insetos voadores que farejam medo e um recorrente e misterioso desenho de 3 caixas que ele havia descoberto entre as anotações de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) o levam a acreditar que uma ameaça maior está a caminho. A Mulher Maravilha (Gal Gadot) ainda está combatendo os vilões do dia-a-dia, mas logo a amazona receberá um aviso de algo mais urgente. As amazonas estão preocupadas com o comportamento estranho da Caixa Materna a que zelam, e logo elas terão que enfrentar um inimigo muito mais poderoso do que suas extraordinárias capacidades: O Lobo da Estepe (Ciáran Hinds, o Rei Pra Lá da Montanha de Game of Thrones).

Mulher Maravilha (Gadot) enfrenta o Lobo da Estepe (Hinds): luta entre deuses ainda é desequilibrada
Ambos herois entendem que o tempo está se esgotando e que é preciso recrutar mais ajuda – uma vez que o Superman (Henry Cavill) está morto, é necessário refazer uma antiga aliança entre os povos da Terra para enfrentar o disseminador do apocalipse. Mas como eles iriam exigir isso de um rei, de um jovem com problemas de socialização e um hibrido clandestino de humano e androide? Eles precisam contar a verdade, e é assim que eles vão atrás do Aquaman (Jason Momoa), o Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher). Decididos a impedir que o Lobo da Estepe tenha em suas mãos as três caixas, eles farão de tudo para evitar que a Terra seja destruída.

Liga reunida para a batalha final
Devo confessar que Liga da Justiça não chegou a superar minhas expectativas, mas o filme surpreende por ter melhorado muito o tom “supergrupo de herois” que eles tentaram em 2016 e que não foi bem o esperado. Era meio obvio que os mais conhecidos teriam mais espaço na trama, mas ainda assim foi empolgante assistir ao desenrolar da trama. Para um filme tão longo (e com produção tão conturbada), o resultado final acaba sendo satisfatório.

O futuro de Batman (Affleck) soa um pouco incerto, mas a Liga parece ter um bom futuro
Tem problemas? Alguns, mas é compreensível. Era preciso dar tempo para humanizar um pouco os heróis e fazê-los mais reconhecíveis para os não-fãs, e a receita mais usada para criar empatia com o público geralmente é o humor. Nesse caso, preciso louvar o desempenho do filme: apesar do personagem Flash ficar com boa parte do seu desempenho comprometida com o alívio cômico, ainda assim não é exagerado (e eu acredito que eles vão explorar mais o drama no filme solo dele), há bastante equilíbrio entre ação e humor. Mas a participação do reino de Atlântida ficou muito subdesenvolvida – era até desnecessária a participação de Mera (Amber Heard) – e apressada, sem realmente intrigar ao público. Cyborg talvez tenha sido o mais beneficiado dentre os “novatos” e dá para entender porquê.

Aquaman (Momoa): apesar de alguns bons momentos, mal disse a que veio
Houve bastante comoção entre fãs com algumas surpresas e cenas do longa, em especial à segunda cena pós-créditos (#ficaadica), e agora há uma grande expectativa para a sequência da Liga: menções ao maior vilão  da DC, Darkseid, e à Liga dos Lanternas Verdes fizeram a sala se tornar um estádio de futebol. Então, mesmo com muito o que se lapidar ainda, Liga de Justiça vale o ingresso, a pipoca e a espera.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Deserto


Deserto (Desierto, 2015) é um filme tenso. Passado todo no deserto que une (e divide) os Estados Unidos do México, o drama de Jonas Cuarón relata a estória de um grupo de imigrantes ilegais mexicanos tentando atravessar o deserto e que acabam encontrando um vigilante solitário - que acha que cumpre seu papel de proteger a pátria. Entre sol forte, promessas de uma vida nova, areia, sonhos pedras e cactus, a luta pela sobrevivência ganha novos significados.

Moisés (Gael García Bernal) faz parte de um grupo de mexicanos que embarca clandestinamente para os Estados Unidos. Quando o carro deles quebra no meio do deserto, as coisas saem do planejado: a rota muda e o destino de todos também. O grupo se divide e com ele permanecem um dos guias,  Mechas (Diego Cataño), Adela (Alondra Hidalgo) e Ramiro (Óscar Flores Guerrero) - uma jovem cujos pais sonhavam com sua segurança e a deixaram nas mãos de um atravessador - e Ulisses (David Peralta Arreola), que acabaram não conseguindo acompanhar o ritmo do outro guia e a maior parte do grupo. E o que parecia ser uma desvantagem tornou-se uma segunda chance para eles.

Moisés (Bernal) e Adela (Hidalgo): imaginar-se na pele deles nesse momento é algo aterrador
Sam (Jeffrey Jean Morgan) é um americano que costuma caçar no deserto - mas não exatamente como um caçador normal. Suas presas não são os animais que lá habitam, mas qualquer um que tente atravessar a fronteira de forma ilegal. Ele avista o grupo de Moisés e até comenta sobre eles com um dos patrulheiros locais, mas resolve agir por conta própria. Com a ajuda de seu cão de caça Tracker (sugestivo nome de Rastreador para um animal de estimação) ele começa a perseguição. Sem dó - e até com um terrível prazer em fazê-lo - ele abate o primeiro pelotão (que não tinha onde se esconder). Ao perceber que não tinha terminado com todo o grupo, ele embarca numa verdadeira caçada aos sobreviventes.

Embora não seja um filme com apelo comercial, Deserto tem um argumento bastante atual capaz de atrair a atenção do público: a busca por condições melhores de vida em solo estrangeiro. É um choque de realidade para quem nunca realmente pensou em como seria uma travessia dessas, nem nas expectativas que essas pessoas carregam. Mais do que isso, o filme é uma reflexão enorme sobre Poder: quem é mais poderoso? O homem americano e seus armamentos e táticas de guerra? O sonho dos que buscam um lugar melhor para viver? O deserto, que divide todos os que ousam desafiá-lo em sobreviventes ou não-sobreviventes?

O desempenho de Jeffrey Dean Morgan como o atirador Sam é sensacional
Com personagens extremamente humanos (mesmo na monstruosa desumanidade do preconceito de Sam, é possível enxergar ali um homem de espírito quebrado e mentalidade distorcida), é difícil ser indiferente aos personagens de Cuarón. Mesmo sendo lançado aqui no país dois anos após sua realização, o longa traz um diálogo bastante atual - principalmente em um Estados Unidos da era Trump. Vale a pena conferir a belíssima fotografia de Damián García e o ótimo desempenho de Jeffrey Dean Morgan. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok


Do universo cinematográfico da Marvel, os filmes do Deus do Trovão sempre foram os mais "engraçadinhos". Isso fica bem evidente nesta terceira aventura solo do heroi, Thor: Ragnarok (2017). Para quem espera algo mais sombrio (afinal, o Ragnarok está associado ao apocalipse mitológico) deve estranhar o visual bastante colorido do início ao fim e o tom quase infantil de humor - nada que estrague o desenrolar do filme, mas que pouco contribui para o entendimento da trama. Apesar de alguns defeitos incômodos, como a falta de destaque para os vilões e o clima meio forçado de humor, o filme ainda é mais consistente e impactante que os dois antecessores.

Hela (Blanchett): sinistra e cheia de ressentimento no coração

Em linhas gerais, temos a trama circulando entre os herdeiros de Asgard: Thor (Chris Hemsworth), Loki (Tom Hiddlestone) - que apesar de adotado por Odin (Anthony Hopkings) é considerado por este como um filho legítimo - e Hela (Cate Blanchett), a primogênita do deus-supremo. Sim, você não leu errado: Thor e Loki tem uma irmã mais velha, e ela só é mais poderosa até que o Pai de Todos. Trancafiada por séculos, alimentou um ódio terrível pelo pai Odin enquanto ele governava os nove reinos sem ela; porém como Hela estava longe de Asgard (a fonte de seu poder), ela precisava esperar uma oportunidade de voltar. Quando Loki toma o trono de Odin ao final de Thor - O Mundo Sombrio (2013), Asgard fica desprotegida e a Deusa da Morte tem a oportunidade de voltar. Com os sonhos proféticos de Thor se tornando realidade, ele precisa correr contra o tempo para impedir que Asgard seja destruída para sempre.

Com o reino em perigo e sem Thor (Hemsworth) e Odin (Hopkins) para protegê-lo, resta a Heimdell (Elba) a tarefa de defender Asgard
Muita coisa acontece nesse meio-tempo: um encontro-relâmpago com o Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch), o mágico martelo Mijölnir é destruído por Hela, Thor acaba sendo levado como um competidor ao estilo gladiador para o planeta Sakaaran e enfrenta o Hulk (Mark Ruffalo) para delírio da plateia, uma Valquíria (Tessa Thompson) rebelde - das mitológicas filhas-guerreiras de Odin, equivalente às amazonas gregas - irá se juntar ao grupo de Thor para proteger Asgard. Aliás, é em Sakaaran que estão os personagens mais bacanas: o Grão-Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e o lutador - e pseudo revolucionário - Korg (voz do diretor Taika Waititi) são as coisas mais legais do planeta: são realmente divertidos, sem que haja um esforço muito evidente para o humor acontecer. Em Asgard, há ainda Heimdell (Idris Elba) liderando a resistência contra a nova rainha e o indeciso Skurge (Karl Urban), que não sabe muito bem em que lado quer ficar - mas que é capaz de qualquer coisa para salvar a própria pele. 

Grão-Mestre (Goldblum) e Loki (Hiddlestone) assistindo à luta de Thor e Hulk (Ruffalo): sequência divertida em Sakaaran
Levando em conta a diversão acima de tudo, o filme se propõe a entreter e ser assumidamente um passatempo. O elenco inteiro parece se divertir enquanto trabalha, e devo aplaudir a atuação de Blanchett. Não que eu duvidasse da capacidade dela, muito pelo contrário; mas como todo grande vilão megalomaníaco, eu temi que ela ficasse caricata. Não foi o que aconteceu (ainda bem!), mas fiquei bastante decepcionada com dois fatores: a falta de destaque para sua personagem na trama e os efeitos digitais nas cenas de luta da vilã. É tão evidente que não é um humano performando aqueles movimentos que dá até dó - custava colocar uma dublê para isso? 

Sturge (Urban) e Hela em Asgard: vilões pouco explorados
Mas, se é para falar de efeitos especiais, esse é apenas um pequeno defeito em um universo muito maior dentro do filme. As criaturas em CGI são magníficas em detalhes, e o visual geral resulta em algo espetacular. Nesse ponto, devo dar os devidos créditos ao diretor Taika Waititi: ele se propôs a fazer um filme divertido e bonito, e conseguiu os dois. Apesar de eu ter rido bastante durante a exibição - principalmente quando as piadas eram mais sutis, diga-se - eu acredito que este filme não vai ficar na memória por muito tempo. Pior, não vai ser daqueles que a gente não se cansa de rever. E também senti falta de um tom mais apocalíptico, afinal o nome nos leva a crer que haverá uma ameaça iminente pairando sobre a cabeça de Thor o filme inteiro - mas não é essa a sensação que fica. No fim, saí do cinema com uma confusa sensação de ter gostado do longa, mas não ter me empolgado tanto quanto achei que ficaria - além de achar que ele logo cairá no esquecimento.

Valkíria (Thompson) em um bar de Sakaaran: visual colorido e impactante
Ainda assim, é uma experiência digna de ver na telona. Duas cenas de ação tem a maravilhosa trilha sonora de Led Zeppelin (The Immigrant Song) e nos deixam com o coração acelerado conforme a tensão da música combina com os eventos da tela. Tem lá seus momentos de importância para o grand finale que será Guerra Infinita, mas o foco passa longe disso. Menos "drama familiar" que Guardiões das Galáxias Vol. 2Thor: Ragnarok é uma boa pedida para um cinema em família pois deve agradar desde os pequenos até os adultos fãs da franquia. 

P.s.: Algumas sequências bastante divertidas merecem destaque, além das já habituais cenas pós créditos para ficar de olho (são duas nesse filme): atenção para as cenas onde Loki aparece, em toda a parte da arena gladiadora de Sakaaran, e na hilária representação teatral em Asgard que acontece logo no início. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tempestade - Planeta em Fúria


Da seara de "filmes-catástrofe", o que a gente espera? Muita destruição em massa, cenas de fuga alucinante e um final feliz. Tempestade - Planeta em Fúria (Geostorm, 2017) tem tudo isso, mas parece que a receita desandou em algum ponto. Para começar, acho que essa história do "único homem capaz de resolver os problemas e salvar o mundo" já está muito batida e fora de uso. A era dos lobos solitários defensores da humanidade já ficou para trás, lá em 1990/2000. No século XXI tem muito mais condições de conseguir resolver os problemas em grupo. Mas, vamos lá.

A sobrevivência do nosso frágil ecossistema depende agora da monitoria de satélites espaciais - e do bom relacionamento entre dois irmãos, Jake (Gerard Buttler) e Max (Jim Sturgess) Lawson. Max, o mais novo, precisa cuidar do gênio forte do irmão Jake, o responsável técnico da Dutch Boy - a estação espacial responsável pelo controle da rede planetária de satélites que monitoram as mudanças climáticas - porém nem sempre é ouvido ou respeitado. Assim, Jake acaba sendo expulso do programa enquanto Max é promovido, o que racha a já frágil conexão entre eles.

Já imaginou uma cidade no deserto completamente congelada?
Mas um misterioso incidente metorológico acontece: uma cidade afegã foi completamente congelada, causada por um aparente defeito no satélite que a monitorava. Pouco tempo depois foi a vez de Hong Kong sofrer com uma aparente explosão de gás desproporcional (provavelmente causado pelo satélite da cidade), e a suspeita de um defeito crítico na Dutch Boy leva o conselho do presidente Palma (Andy Garcia) a ceder e chamar Jake de volta. Mesmo receoso de reencontrar o irmão após anos sem falar com ele, Max recebe de Dekkom (Ed Harris), o Secretário de Defesa, a missão de convencê-lo a consertar a estação, pois era primordial para a política do país entregar para o Conselho Internacional um aparelho funcional.


Depois de certa relutância, Jake aceita voltar à estação que ele praticamente criou. Ao chegar na estação, as coisas estão um pouco diferentes: a comandante Ute Fassbinder (Alexandra Maria Lara) apresenta a nova equipe e as novas circunstâncias da Dutch Boy. Alguns acidentes envolvendo a tripulação levam Jake a pensar em uma espécie de sabotagem - e ele vai precisar da ajuda do irmão para conseguir descobrir quem está por trás disso e impedir que as alterações criadas pela estação espacial desencadeiem uma reação catastrófica que pode dizimar a vida na Terra.

A tripulação só podia assistir à catástrofe na Terra: o tempo para salvar o mundo está acabando

Então temos um cenário bastante alarmante e uma boa premissa, com pano de fundo político intrigante e um elenco estelar. Mas a coisa toda é tão previsível que nem as piadas (supostamente inseridas para aliviar a tensão inexistente) servem para divertir. De fato, as gracinhas feitas com filmes e personagens anteriores de Buttler (como batizar os satélites de "rock'n'rolla", mesmo nome de um famoso filme em que ele era protagonista) seriam mais bem aproveitadas se houvesse algo mais prender a atenção da gente. As falas são piegas, as atuações são sofríveis - especialmente as de Abbie Cornish, que faz Sara Wilson (namorada de Max e chefe de segurança do presidente Palma) e Andy Garcia, que está tão burocrático que chega a incomodar. Nenhuma das "viradas" do roteiro é realmente surpreendente. 

Ute (Lara) e Jake (Buttler): unindo forças para salvar o planeta
Apesar disso, os efeitos especiais apocalípticos são muito bons, e isso eu preciso reconhecer. A destruição do planeta (e aqui incluo uma impagável cena de catástrofe na praia de Copacabana) é caprichada, mas só isso não é o suficiente para fazer o filme funcionar. De fato, acho que o maior problema é que o diretor e roteirista Dean Devlin quis passar uma mensagem maior em um filme de ação, mas não conseguiu atingir o alvo. A ideia de que um inimigo em comum (no caso, a natureza em fúria) seria um elo para redimir a humanidade já está mais do que desgastado e a trama política que deveria sustentar o arco mais denso é frágil demais. Tempestade - Planeta em Fúria é um filme que vai passar em branco, mas que pode agradar a quem é fã do gênero.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Além da Morte


A proposta de Além da Morte (Flatliners, 2017) é ser um filme de suspense diferente. O que chega a ser uma pena, porque enquanto o diretor Niels Arden Oplev (Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Mr. Robot) se propõe a fazer o famoso "feijão com arroz" que o gênero pede de forma impeável, o filme anda com muita desenvoltura e sucesso - mas é justamente na hora do "fazer diferente" que ele desanda. O final meio esquisito do roteiro de Ben Ripley é que estraga, porque tinha em mãos excelentes produção, diretor e elenco para fazer deste, talvez, um bom exemplo de filme de gênero. 

O grupo de estudantes pesquisadores: resultados empolgantes porém perigosos
Courtney (Ellen Page) é uma estudante de medicina que sobreviveu a um acidente de carro há alguns anos, no qual sua irmã mais nova, Tessa (Madison Brydges), acabou morrendo. Enquanto faz residência no hospital universitário, ela fica obcecada pelo que acontece no pós-morte. Determinada a fazer experiências sobre o tema, ela acaba atraindo seus amigos Sophia (Kiersey Clemons, que será Iris West no próximo filme do The Flash), Jamie (James Northon, de Rush - No Limite da Emoção), Marlo (Nina Dobrev, do seriado de tv Vampire Diaries) e Ray (Diego Luna) para participarem do perigoso processo.

Como são todos médicos residentes, ela confia que eles terão sucesso em trazê-la de volta após uma morte controlada e conseguir mapear o que acontece em seu cérebro nesse período. Mesmo que uns estivessem mais assustados, outros animados, ou até relutantes, todos acabam envolvidos no procedimento. E uma vez que Courtney retorna, a maioria quer participar - principalmente porque, depois do experimento, a jovem parecia ter se tornado um gênio da medicina. Mas nem tudo são flores: os próximos colegas a passar pela experiência e a própria Courtney vão descobrir que a mente pode pregar peças muito perigosas quando ativada daquela forma.

Ray (Luna), Marlo (Dobrev) e Courtney (Page): encabeçando o bom elenco

Dito isso, preciso completar que, até aqui - com os amigos aprofundando os laços de amizade e descobrindo os riscos de se experimentar a morte controlada - o filme consegue prender a atenção. Até mesmo quando os fantasmas dos passados vêem atormentar os que passaram pela experiência é bacana: clichês como "o barulho na casa quando o personagem deveria estar sozinho" e as alucinações que eles sofrem são bem feitas, criando o clima perfeito de tensão e não tem nada de gratuitas. Ponto muito positivo. O problema aqui é a resolução final. Soa boba, depois de tudo o que eles passaram até ali - além de frustrar o espectador por não entregar o banho de sangue prometido pelo crescente clima sombrio. Uma pena.

Kiefer Sutherland faz uma ponta como o médico professor do grupo: homenagem ao longa de 1990
O elenco, encabeçado por Page, Luna e Dobrev dá conta do recado. A tímida participação de Kiefer Sutherland é quase desnecessária, porém é uma homenagem à versão original de 1990 do longa (Linha Mortal, para nós), que tinha ainda Julia Roberts, Kevin Bacon e William Baldwin sob direção de Joel Schumacher (cujo trailler, aliás, me deu vontade de ver essa pérola). No fim, Além da Morte é um bom passatempo, mas será facilmente esquecido após o fim da sessão. 

sábado, 14 de outubro de 2017

Pequena Grande Vida



Contando com muito bom humor, Pequena Grande Vida (Downsizing, 2018*) é um olhar crítico sobre a hipocrisia. Em tempos de Trump no governo americano falando em "tornar os Estados Unidos grande de novo" e as tecnologias e discursos engajados - porém pouco eficientes - para salvar o planeta da destruição, o diretor Alexander Payne não tem medo de pôr o dedo na ferida.

Após uma experiência científica revolucionária - pela primeira vez a ciência conseguiu reduzir pessoas e animais sem que houvesse qualquer prejuízo na saúde destes - o mundo mudaria para sempre: se toda a população aceitasse diminuir, não haveria mais problemas com escassez de alimentos. Vivendo em cidades menores, produzindo menos lixo, consumindo muito menos do que pessoas de tamanho normal, essa seria a solução para os problemas do mundo. Certo? Vejamos.

Dez anos depois, a miniaturização já é uma realidade. Várias comunidades espalhadas pelo mundo são prósperas e vendem a ideia do "sonho americano" como água no deserto - afinal, o pouco dinheiro no mundo grande se torna uma fortuna quando você aceita se miniaturizar. Quem não quer viver uma vida de luxo, segurança e conforto? Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig) são um casal como outro qualquer. Empolgados pela iniciativa de fazer o mundo melhor e pela oportunidade de finalmente conquistar uma vida boa, eles aceitam o processo. Mas nem tudo acaba sendo como eles imaginaram.

E aí temos esta pérola: uma pequena alfinetada, polida e redondinha, para a gente entender que nem sempre as boas intenções são suficientes - e que nem sempre o que parece altruísmo o é de verdade. As doses generosas de crítica bem humorada nos levam a refletir sobre as relações humanas em vários níveis, e o quanto nossas ações são mais importantes que nossa palavra. De forma leve e divertida, o Payne nos faz pensar sobre assuntos tão pertinentes - e isso foi o que mais me encantou neste longa.

Em um filme recheado de participações especiais (e algumas caras conhecidas do público, como o ator português Joaquim de Almeida e o eterno Dawson do seriado, James Van Der Beek), as atuações de Hong Chau como Ngoc Lan Tran, uma ex-prisioneira vietnamita, e de Christoph Waltz como Dusan, o novo vizinho  excêntrico de Paul, são a cereja do bolo. A partir do momento em que a personagem de Chau entra em cena, o filme é dela. Waltz é um caso à parte: basta um sorriso e ele já disse a que veio (desculpem, sou fã assumida - mas ele é maravilhoso mesmo.) Matt Damon também não fica atrás, dando conta de seu "ingênuo homem-comum" com bastante credibilidade.

Pequena Grande Vida é um filme diferente, que traz elementos de comédia normal disfarçando uma reflexão profunda sobre a sociedade e o futuro da humanidade. Com certeza vale a pipoca do fim de semana.

*O filme terá exibição nesta edição do Festival do Rio nos dias 13, 14 e 15/10. Depois dessas, só no lançamento oficial em janeiro de 2018. Se estiver na cidade, não perca a oportunidade!

domingo, 8 de outubro de 2017

A Forma da Água

Eu só tenho a agradecer a Guillermo del Toro por esse presente. É assim como me sinto depois de assistir a essa delícia de filme que é A Forma da Água (The shape of water, 2018). O longa estreia em janeiro de 2018, porém eu tive o privilégio de assistir à primeira exibição dele durante a abertura do Festival do Rio 2017. E ele já se tornou um dos meus favoritos de todoa os tempos.

No longa, del Toro nos conta uma linda e emocionante fábula: Eliza Esposito (Sally Hawkings) é uma mulher comum que tem um problema de fala, o que não a impede de ter uma vida normal. Alternando as visitas a seu recluso vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) e seu turno noturno de trabalho em uma base científica secreta, ela sobrevive apesar das dificuldades. Um dia, porém, um novo projeto científico chega à base e sua vida mudará por completo. Uma criatura capturada na Amazônia foi levada para lá afim de ser estudada, e uma improvável amizade entre eles nascerá.

Sobre essa premissa, del Toro discute profundos temas como sexualidade, beleza, auto-conhecimento, humanidade e divindade, poder, racismo e preconceito - tudo azeitado com muito bom humor e delicadeza. O longa é o que eu descreveria como um poema e um sonho combinados, um surrealismo poético que emociona e alcança o público como poucos. Seus personagens são tão cativantes em suas diferentes personalidades que é quase impossível não se apegar a eles.

Todo o elenco é magnífico, e as atuações delicadas só reforçam a empatia com os personagens. Eles parecem humanos, reais, mesmo que estejamos presenciando um conto de fadas. Destaco as interpretações de Hawkings e Octavia Spencer, que fez de sua Zelda um delicioso contraponto à quieta amiga de trabalho. Michael Shannon também merece ser mencionado por dar vida ao vilão Strickland, um homem que consegue resumir em suas contradições o que há de pior em nossa sociedade.


Nem preciso mencionar o primor que é a fotografia e produção de arte, que nos mergulha (com perdão do trocadilho) no universo meio mágico, meio Guerra Fria. Um belo subtexto aqui, pois o tempo era de resistência à mudanças enquanto havia esperança de um mundo melhor, mesmo que as ações fossem regidas pelo medo e nem sempre terminassem como se esperava. Aliás, há muito o que se ler nas entrelinhas desse filme.

Uma belíssima obra, de uma sutileza e impacto como poucos filmes recentes conseguiram trazer à tela - e à tona. A Forma da Água é o que eu acredito que o cinema é: poesia e emoção, que faz pensar e repensar nossa forma de ver o mundo, de agir. Ansiosa para vê-lo novamente. Vem logo, 2018!