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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers - O último cavaleiro

Quinto filme da franquia, Transformers - O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight, 2017) é sequência direta de seu antecessor (A Era da Extinção). O protagonista é Cade Yeager, vivido por Mark Wahlberg e ele continua defendendo os autobots - agora perseguidos por um esquadrão militar. Tentando salvar quantos amigos puder, acabará se envolvendo em uma trama muito maior do que imaginava - e que remete às lendas da Távola Redonda. É, você leu direito.



Já no começo descobrimos que a magia de Merlin (Stanley Tucci) é, na verdade, tecnologia alienígena: para ajudar o Rei Arthur (Liam Garrigan), ele recorre à ajuda de um autobot milenar - que lhe confere um cajado com superpoderes e se transforma em um dragão de três cabeças para lutar no campo de batalha. 1600 anos depois, um grupo de crianças consegue invadir uma área protegida pelo governo que é praticamente um cemitério de autobots. Lá encontram alguns ainda vivos, e ativam as defesas. A menina Izabella (Isabela Moner) vivia ali muito antes, e seus únicos amigos eram os robôs alienígenas - e por causa das crianças, ela perde um deles. Cade chega a tempo de salvar a turma dos militares, mas não o suficiente para salvar um dos autobots atingidos. Este lhe entrega uma espécie de medalhão, que será importante mais para a frente na trama.

Izabella (Moner): apesar de fofa, não tem muita função na trama

Enquanto isso, no espaço, Optimus Prime (Peter Cullen) está voltando para seu planeta natal: Cybertron. Lá chegando, ele vê tudo destruído. Quintessa (Gemma Chan), a rainha do planeta em ruínas, o escolhe e domina para conseguir de volta o cajado de Merlin: segundo ela, essa é a única arma capaz de restaurar Cybertron. Todo o planeta, então, se dirige deliberadamente até a Terra, o que aciona o TRF - esquadrão militar de defesa contra Transformers - sendo iminente o ataque ao nosso planeta. Com isso, uma inimaginável aliança desesperada surgirá na tentativa de defender a Terra - mas será que os Decepticons são confiáveis?

Megatron (Welker) e Coronel Lennox (Duhamel): uma aliança improvável

No meio disso tudo, Sir Edmund Burton (Anthony Hopkings) começa a por em prática o plano que guarda há muito tempo. Ao analisar as pistas com Cogman (Jim Carter), descobre que agora é o momento de agir - e só há uma coisa capaz de impedir a destruição do mundo: a união entre magia e ciência, a mesma que salvou a Inglaterra tantos anos atrás. Para isso, ele precisa da ajuda da professora Vivian Wemlbey (Laura Haddock), professora da Universidade de Oxford e especialista em história da Inglaterra.

Vivian (Haddock) e Cade (Wahlberg): romance não convence

Bebendo em várias fontes, mais da aparentemente inesgotável fonte que é a lenda do Rei Arthur, o roteiro (fraco) tenta costurar muitas ideias numa colcha de retalhos enorme e espalhafatosa - e dá muito errado. A gente ri pelos motivos errados, embora o filme seja recheado de alívios cômicos. As sequências de ação mirabolantes e vertiginosas, marca registrada do diretor Michael Bay, são a espinha dorsal do filme - e é justamente isso o que enfraquece o longa. As partes em que a trama deveria se explicar para o público são ora apressadas, ora cheias de jargões militares e tecnológicos, ora piadas um tanto forçadas. Não há tempo para se aprofundar os personagens, e mesmo os maiores Transformers ficam esquecidos.

Quintessa e Optimus Prime: tanta coisa acontece que ninguém se destaca

Ao que parece, não pode haver filme dos Transformers sem a participação de Optimus Prime e Megatron (Frank Welker), mas aqui os dois são meros coadjuvantes. Se não estivessem no longa, nem fariam diferença - qualquer outro Autobot/Decepticon poderiam ter desencadeado as tramas deles. Na ânsia de fazer o fan service, retomam personagens populares da franquia porém sem lhes dar o destaque que merecem e os novos personagens mal tem tempo de se apresentar com uma piada ou tirada genial. No fim, todo mundo soa meio como coadjuvante, sem direito a nenhum destaque pra ninguém em momento algum. Isso reflete na tela: parece que todo mundo está correndo e não sabe bem nem para onde nem porquê. É bem esquisito.  

Cade sobrevive às aventuras, mas a gente se pega perguntando: "como?"

Outra coisa que incomoda são os efeitos especiais. Assistimos ao longa em IMAX, que deveria ser o maior chamariz para qualquer filme dos Transformers, mas não fez muita diferença, não. É carro que se desmonta e nave que se desdobra e submarino (!) que faz curva, e nada disso impressiona - só faz a gente se perguntar como foi que eles (os humanos interagindo com isso tudo) não morreram ali? Para quem não sabe, eu sou dessas que compra qualquer loucura/viagem de autores de ficção (adoro fantasia, e quanto mais louca, melhor), mas há limites para tudo! Fica difícil acreditar que sobrevivemos ao ataque de Cybertron pela forma como foi mostrada nossa defesa - seja só militar, seja com a ajuda dos Transformers. O mais revoltante? O objeto mais importante da história inteira, na verdade, não tem importância nenhuma. 

Sir Barton (Hopkings) e Hot Rod (Sy): tentativas de enredo e alívio cômico do filme

Wahlberg até parece à vontade em cena, e Hopkings entrega um trabalho com excelência - às vezes ele realmente parece estar se divertindo com aquilo - mas o romance mal-ajambrado entre Cade e Vivian é desastroso. A pequena Izabella também não tem muita função, apesar da jovem atriz ser bastante promissora. No fim, o longa é confuso e distraído, deixando muitas pontas soltas para um final aparentemente poético e inspirador que não empolga nem emociona. Diverte pelos motivos errados, e dificilmente vai ficar na memória dos fãs ou agregará novos membros para o time.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Círculo


A sensação ao final de O círculo (The circle, 2017) é de que podia ter sido melhor. Uma premissa ótima, que leva a uma reflexão mais profunda sobre como usamos nossa tecnologia - ou melhor, sobre como não percebemos como a usamos. Voltado para um público mais jovem, é da mesma seara de filmes baseados em livros young adult e que mostram uma verdade cruel para a galera meio desatenta, mas não deixa de ser interessante mesmo para os mais experientes.

Mae Holland (Emma Watson) é uma jovem como qualquer outra: trabalha num emprego ruim enquanto sonha com uma oportunidade de ajudar sua família. Quando sua amiga Annie (Karen Gillan, de Doctor Who e Guardiões das Galáxias) consegue uma entrevista de emprego n'O Círculo, ela sente que essa é a chance da sua vida. A empresa parece ser o sonho de qualquer trabalhador: clima descontraído, muitos outros jovens criativos e empolgados, viagens a lugares descolados, muita tecnologia envolvida. Apesar de assustada com a quantidade de informação e com o volume de trabalho, ela consegue se sair muito bem logo na primeira semana. E quanto maior é a responsabilidade sobre os ombros dela, mais ela quer se dedicar e se provar capaz. Porém Mae não desconfiava do quanto a empresa iria exigir dela - literalmente.
Mae (Watson): mergulhando de cabeça no mundo das redes sociais
Empenhada em se manter no emprego por conta dos ótimos benefícios, especialmente os médicos por conta de seu pai Vinnie (Bill Paxton, em seu último filme), Mae se destaca por sua eficiência. Encantada com as novas possibilidades que a a tecnologia e o pensamento progressista de Bailey (Tom Hanks, excepcional - como sempre), ela sente-se ainda mais responsável pelo programa, principalmente pelas oportunidades de mudança na vida de pessoas como ela. Mas o que ela não percebe é o quanto essa dedicação vai lhe custar. Os efeitos sobre Annie e Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood - da infância à juventude), seus melhores amigos, são o alerta para que ela abra os olhos: nada é tão perfeito quanto parece.

Annie (Gillan) ajuda Mae a entrar para o Círculo: preço alto demais para pagar pelo sucesso
É interessante ver como Mae se dá conta aos poucos do quanto ela se afastou das pessoas mais importantes pra ela e fazer um paralelo com nossas próprias vidas. Quantas vezes nos acostumamos a ter encontros virtuais e isso nos parece tão natural quanto falar ao vivo com alguém - sendo que esse contato não tem nada de natural? Quantas vezes nos dedicamos mais ao trabalho do que às nossas amizades e família? O quanto nos expomos, espontaneamente, sem nem perceber? O quão benéfico e altruísta pode ser um produto comercial? Na era do clicar e aceitar regras sem lê-las, muitas vezes nem pensamos nisso. 

Hanks: carisma e experiência fazem o filme valer a pena
Mas apesar dessa reflexão claramente importante para nós, o longa demora a engrenar - e é o carisma de Tom Hanks que salva tudo. A gente acredita porque a galera topa trabalhar tanto só para ficar mais perto dele - ou ser, um dia, como ele. Ele é aquele chefe inspirador, que é bacana, que ouve os seus funcionários, que recompensa boas ideias - obviamente, tudo até a página 2. E isso é o que é mais fascinante de observar: a sutileza como Hanks trabalha a mensagem subliminar, aquilo que só os olhos conseguem expressar. Aqui vale dizer que os anos de experiência influenciaram e muito no resultado, mas a outra única personagem a apresentar esse extra foi a Annie de Gillan. 

John Boyega teve muito pouco espaço para que seu personagem, Ty, pudesse ter relevância
Emma Watson é boa com dramas, mas a mim faltou um tanto de deslumbramento de Mae ao chegar à nova empresa. John Boyega (o Finn de Star Wars - O despertar da Força) tinha um papel teoricamente importante, mas não houve espaço para essa importância na trama - e eu culpo inteiramente o roteiro, que acabou por valorizar a adaptação de Mae e passou como um rolo compressor pelas nuances dos personagens até chegar ao final apressado. A compreensão do filme não fica prejudicada, mas a experiência de interpretação fica. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Garota ocidental - Entre o coração e a tradição

Baseado em uma história real, A garota ocidental - Entre o coração e a tradição (Noces, 2017) é um olhar mais aproximado de um dilema cotidiano. Um trecho da vida de uma adolescente muçulmana prestes a se casar obrigada reflete muito sobre mais do que apenas a questão da religião. A transição da adolescência, a mulher na sociedade, as escolhas que fazemos, a busca pela verdadeira identidade, as relações humanas, a expectativas versus a realidade. 



A protagonista Zahira (Lina El Arabi) é uma jovem de 18 nos que, como qualquer adolescente, tem inseguranças e incertezas norteando as escolhas mais importantes de sua vida. Em busca de sua verdadeira identidade, acompanhamos os momentos que antecedem a decisão mais importante de sua vida - casar-se e assumir a identidade de sua família paquistanesa ou negar-se a isso e viver a própria vida como qualquer outro jovem?

Zahira (El Arabi): em busca da identidade

Desde o início o filme é tenso: acompanhamos Zahira em uma entrevista, que depois descobrimos ser de uma clínica de aborto. Ali é possível perceber todo o drama que uma decisão desse porte envolve: a sensação de responsabilidade sobre uma outra vida, uma visão do futuro com (ou sem) a nova vida, as pressões externas da família e da sociedade, a falta de apoio do companheiro. Uma síntese brutal em poucos minutos de filme, e logo compreendemos o mundo da jovem.

As irmãs Zahira e Hina (Marion) tem o diálogo mais marcante: "É claro que é injusto. Somos mulheres."
A família é de origem paquistanesa e de religião muçulmana, e apesar de estarem habituados a viver em outro país - que ofereceu melhores oportunidades - os costumes devem ser preservados. Com isso, ela deveria "corrigir o erro" de ter sido apenas uma jovem adolescente e logo casar-se com um dos pretendentes que seus pais escolheram. Quanto antes, melhor. Apegada à família, principalmente aos irmãos Amir (Sébastien Roubani)  e Amara (Rania Mellouli), ela oscila entre sua intensa vontade de viver uma vida normal e o peso que a tradição tem sobre a vida da mulher que segue a tradição. 

Amir (Roubani), o irmão de Zahira: os costumes afetam a todos, porém de forma diferente

A nós, espectadores, fica claro o quanto a jovem gostaria que houvesse uma saída, um meio-termo onde escolher por uma vida para si própria não significaria perder tudo o que mais amava. E nos dói ser apenas testemunhas dos fatos. Dói não haver saída. A forma como o enredo se desenrola deixa claro que o fim será amargo, não importa se terminando bem ou mal para Zahira. O tom melancólico (sem ser melodramático) está no olhar da jovem, e o trabalho da jovem atriz Lina El Arabi foi simplesmente brilhante: construiu Zahira como uma jovem forte, capaz de lidar com intensas emoções e decisões, mas com uma alma jovem, alegre, divertida. Aliás, o elenco inteiro está espetacular, transmitindo muito do que não é dito no olhar - e dou todo o crédito para a sensibilidade do diretor Stephan Streker.

O olhar de Zahira diz o muito mais do que qualquer palavra

As mudanças bruscas de atitude da jovem refletem o que é ser adolescente, mas também influenciam no ritmo e na intensidade das reações desse universo onde ela vive. Há muito pouca margem de liberdade sobre várias questões na vida de Zahira, e a difícil fase da adolescência fica ainda mais complicada com o peso extra com o drama familiar. É um filme bonito com um peso enorme, e o silêncio ao subir dos créditos é reflexo do impacto sobre nós.

Não é um filme fácil de digerir, embora seja fácil se encantar com ele. Um filme que marca pela forma direta com que olha nos olhos do espectador e pede para ser visto, notado, e sobretudo pede compreensão ao invés de julgamento - porque se não existe isso, todos só tem a sofrer. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Múmia


A múmia (The Mummy, 2017) é o filme de estreia do Dark Universe - ou Universo Sombrio, como queiram - da Universal. E, devo dizer, é um bom primeiro passo. O projeto promete reunir os maiores monstros em um único pacote, com o personagem Dr. Jekyll (interpretado por Russel Crowe) de O Médico e O Monstro, capitaneando uma organização secreta que combate os maiores males da Terra - e a múmia foi o primeiro deles.

Logo no início vemos Ahmanet (Sofia Boutella), aquela que seria destinada a ser a faraó, ser “traída por seu pai - que tivera um filho com sua segunda esposa. Tomada pelo ódio, a jovem princesa faz um pacto com Set, o Deus da Morte, para obter poder e controle. Antes que o ritual fosse completado, porém, ela é impedida. Mumificada viva, foi mantida presa pela eternidade em um sarcófago cujo paradeiro se perdeu no tempo.

Nick Morton (Tom Cruise) e seu amigo Vail (Jake Johnson, de New Girl) são dois soldados americanos que se aproveitam de estar no front iraquiano para lucrar com venda de relíquias no mercado negro. Ao roubar o mapa de sua colega de trabalho, a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis) e de acidentalmente deflagrar um conflito com uma célula rebelde, o trio é destinado pelo coronel Forster (Courtney B. Vance) para investigar o que encontraram. Enquanto Jenny tenta compreender aquela estranha descoberta - o que um sarcófago egípcio estaria fazendo tão longe de casa, e sob tanta proteção espiritual? - Nick acaba por desencadear algo maior do que eles poderiam prever: liberando Ahmanet de sua prisão espiritual, ele se torna amaldiçoado - e ela vai precisar de ajuda para cumprir sua vingança.

Basicamente, o roteiro é correto: introduz muito bem a história da múmia, sua maldição e suas terríveis possíveis consequências, além de fazer muito pelo Dark Universe em si: revela o suficiente para deixar o público curioso com a organização e os futuros monstros sem revelar demais. Mas como um filme isolado, A Múmia tem cara de “mais do mesmo” - ou "mais um filme do Tom Cruise". Aliás, quando será que o veremos salvando o mundo sem ter que literalmente fugir correndo (em movimentos de técnica perfeita) de uma destruição poderosa? Fica aí o questionamento. No máximo, conseguiu mesclar melhor terror e comédia do que a maioria. Novamente os efeitos especiais são superestimados e os sustos gratuitos estão lá para satisfazer a plateia que quer pular da cadeira (embora eu realmente não compreenda como a maioria ainda se assusta com os clichês de terror).

A dupla principal tem ótima química, especialmente por conta de Johnson - e o mesmo não pode se dizer do casal Morton-Halsey. Ela, aliás, é a mais fraca do elenco (eu não comprei o romance meia-boca deles dois), e fica muito difícil ter presença perto de um inspirado Crowe fazendo a gente grudar na cadeira com seu Dr. Jekyll/Mr. Hyde. Ele é a melhor coisa do filme, e foi acertadíssima a escolha do ator - e personagens - para ser o elo entre as futuras produções. No fim, o filme é divertido e deve agradar ao público - e eu realmente espero que arraste multidões para o cinema, pois quero muito ver o que vai ser daqui pra frente!

P.S.: assisti ao filme em uma sessão especial na nova sala do UCI New York City Center, na Barra da Tijuca. O motivo? Essa é a primeira sala 4DX do país. Uma experiência única, com certeza: os bancos vibram e se mexem conforme o que se passa na tela, ambientando o público na cena. Então, se tem uma ventania na telona, vai ter vento na sua cara também; se o carro está passando numa estrada esburacada ou fazendo curvas fechadas numa cena de perseguição em alta velocidade, sua cadeira vai sacudir exatamente como se você estivesse dentro do carro. Um barato! E até água eles tem, seja pra gotejar na sua cara quando entra em uma caverna escura e gotejante ou borrifar na sua cara quando algo vier “te atingir” de frente.

Se neste momento você pensou “ai, meu penteado!”, não se preocupe. Há um botãozinho esperto no braço da cadeira para desligar o efeito molhado - embora todos os outros continuem funcionando. E devo dizer que A Múmia ficou muito mais divertido dessa forma. Portanto, recomendo - e muito! - ao menos uma sessão aqui: é muito divertido se sentir parte da cena. Escolha um filme de ação (para fazer valer seu ingresso), traga um pente no bolso, segure-se firme na cadeira e divirta-se!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Mulher Maravilha




Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017) é, finalmente, um longa à altura de uma super-heroína do porte icônico da personagem. Focado na origem da guerreira, mostra a gênesis da defensora da humanidade de forma bela e poderosa - desde a obstinação por fazer o que precisava ser feito até o amadurecimento que só chega com a tragédia, o longa se preocupa em mostrar do que Diana é feita.

A fofíssima Lilly Aspel interpreta a jovem Diana

Diana (Lilly Aspel, fofíssima) é a única criança de Themyscira, a Ilha Paraíso. Filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), sonha em ser guerreira como a ia Antílope (Robin Wright, excelente). Querendo proteger a filha, a rainha a proíbe de ser treinada, mas é convencida pela irmã de que essa é a melhor maneira de protegê-la. A contragosto, a rainha cede. Conta à pequena princesa a história de seu povo e seu destino de proteger a humanidade, sendo que toda amazona deveria estar pronta para combater Ares - o deus da Guerra - quando ele estivesse pronto para voltar. Porém, nem todos os segredos são contados à menina.


Antílope (Wright), a poderosa general das amazonas: guerreiras incríveis
Diana cresce (e agora é vivida por Gal Gadot, como todo mundo já sabe) e torna-se uma excelente e poderosa guerreira, porém ainda não é páreo para sua tia. Ao descobrir um poder que ainda não sabe definir, a guerra encontra as amazonas. Diana se vê resgatando Steve Trevor (Chris Pine, em ótima atuação) de ser afogado em seu avião destroçado. Em seu encalço, um grupo de alemães que o perseguia também cruzam a barreira mágica entre a ilha e o mundo real. Logo as amazonas reagem à invasão, e, embora suas impressionantes e poderosas técnicas de luta sejam muito superiores às dos homens, eles têm algo que elas desconhecem: armas de fogo. A dura realidade da guerra mostra as garras injustas, e Diana agora precisa escolher: obedecer às ordens da mãe e rainha para ficar na ilha e esperar pela volta de Ares ou desobedecê-la e ajudar Trevor a dar fim a uma guerra que já matou milhares de inocentes. Parece óbvia a escolha dela, não é?



Trevor (Pine) em poder das amazonas: seu testemunho vai levar Diana (Gadot) para a guerra

Visualmente muito bonito - em várias sequências, parece que os quadrinhos ganharam vida e foram parar na telona -, com destaque para a produção de arte e figurino, e baseado em um roteiro razoável, a diretora Patty Jenkings (de Monster - Desejo Assassino) teve muito material para trabalhar. Nas entrelinhas, ponteado com muito bom humor e naturalidade, o discurso feminista discorre pelas ações e escolhas de Diana - e isso é um tiro certeiro. As partes de drama são bem entremeadas com as de ação, com peso e importância equilibrados, tornando a heroína ainda mais poderosa nas consequências de suas decisões. Mas, como "não existe um bom sem um porém", vou ser chata e criticar dois detalhes que me incomodaram muito - mas, que fique claro, não tira o mérito do filme.


Essa cena em slow motion é linda. Mas o exagero de efeitos nem sempre fica bacana




Acho que os estúdios um dia vão descobrir que mulheres também curtem cena de ação e luta intensa, especialmente se quem está "mandando bem" é uma mulher. Slow motion em cena de luta é até interessante (como as Wachowski mostraram para o público em Matrix), mas em excesso é um porre (como elas mesmo provaram na segunda temporada de Sense8). Não tem uma cena de luta nesse longa que não tenha sido interrompida por uma ação em câmera lenta; e nem sempre era para valorizar um golpe impactante. Todo mundo sabe que a Gal Gadot é linda e estrela do filme, não precisa ficar dando tanto detalhe no rosto dela no meio das explosões. Ou seja, nem só de homens que vão babar com a beleza da heroína vive a audiência. Grata pela compreensão.
 
Steve Trevor (Pine): mais do que só o par romântico da protagonista


Outro ponto foi o final ligeiramente melodramático. Engraçado pensar que não houve nenhum escorregão brega no relacionamento Diana e Steve durante todo o filme (aliás, uma salva de palmas para isso!), mas no momento mais decisivo, aos 48 do segundo tempo, estava lá: a breguice do amor romântico, a escolha mais importante movida pelo amor. Diana já tinha um senso de dever muito poderoso - tanto que a fez sair da ilha onde estava protegida mesmo contra as ordens da mãe - então achei que forçaram uma barra aqui, no ponto-chave do roteiro. Mas ok, vamos perdoar porque, apesar desses deslizes, não há demérito: o filme foi maravilhoso, com perdão do trocadilho.


Não é fácil engolir que ninguém reparou nessa espada, mas o caminho parece promissor
Com ótima fotografia, sombria na medida certa (sim, isso foi uma alfinetada nos antecessores Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida), uma trama interessante e um elenco afinado, Mulher Maravilha tem tudo para ser um sucesso de público. E, principalmente, provou que a DC/Warner estão aprendendo com seus erros e aproveitando o momento para aparar arestas. Ainda há muito o que se lapidar, mas os augúrios são promissores. Se continuarem no caminho aberto pela amazona (olha só, uma metalinguagem rolando aqui?), o resultado só pode ser benéfico. Agora já posso dizer com ansiedade: que venha o filme da Liga da Justiça!



Z - A cidade perdida






Z - A cidade perdida (The lost city of Z, 2017) é um filme bastante pretensioso: retratando o misterioso desaparecimento de um explorador britânico na Floresta Amazônica após se convencer de que lá havia uma cidade perdida civilizada, muito anterior à Europa. Retratado como um visionário, preocupado ora com a proteção cultural do lugar, ora com a disputa de verdadeiro descobridor de um achado arqueológico, o longa de James Gray - baseado no livro de David Grann - prende a atenção, mas não cativa o espectador.

Percy Fawcett (Charlie Hunnam, de Sons of Anarchy e Rei Arthur - A Lenda da Espada) é um cara que luta contra o destino. Pai de família que nunca obteria honras nem um cargo melhor no exercito por conta da herança paterna (seu pai havia desgraçado o nome da família por perder tudo no jogo), sonhava com a oportunidade de dar uma vida melhor para seus filhos. Quando já estava conformado que não seria possível construir nada melhor para a família que construía com a esposa Nina (Sienna Miller), surge a inesperada chance de ouro: explorar a Floresta Amazônica, mapeando a área para o governo inglês. Se sobrevivesse, seria a chance de recuperar o nome da família e garantir uma vida melhor para sua amada.

Costin (Pattinson): explorador e sensato
Embarcando na perigosa missão, sem nenhuma garantia de que sequer voltaria vivo, conhece Henry Costin (Robert Pattinson) e Arthur Manley (Edward Ashley) - que vão se transformar em seus maiores amigos. Sobrevivendo ao calor e às adversidades, o grupo finalmente dá cabo de sua missão. Ao voltar para a Inglaterra, Fawcett encontra entusiastas e descrentes de sua descoberta. Um apoiador, o também explorador James Murray (Agnus McFayden), resolve financiar e participar de uma nova exploração - que não vai dar muito certo, principalmente por causa dele. Enquanto ele persegue seu sonho, sua mulher fica em casa, cuidando dos filhos, esperando que ele lhe dê a oportunidade de acompanha-lo em suas aventuras. Passando por mais poucas e boas, enfrentando dúvidas e desconfianças, perdas e reveses, ele segue obstinado até as últimas consequências.

Percy (Hunnam) e a tribo indígena: nem tudo foi tão pacífico
Uma história interessante e pouco conhecida por nós, onde o interessse dos europeus sobre terras amazônicas despertam interesse não só pela riquezas materiais, acaba sufocada em meio a soluções apressadas e confusas. A passagem de tempo entre as expedições é sinalizada em legendas com a data, mas a sensação de tempo transcorrido é muito diferente: por exemplo, a primeira expedição parece muito mais longa do que realmente foi, na parte mais importante, parece tudo muito rápido.

Percy (Hunnam) e Jack (Holland): viajando para encontrar seu destino
Salvo o desempenho do elenco - com destaque para Tom Holland, o novo Homem-Aranha, e Robert Pattinson, que defende bem seu personagem taciturno - o longa torna-se pouco cativante. Quem for ao cinema sem saber o que o espera, vai se perguntar qual é o principal foco do filme: é um filme de exploradores/desbravadores? Um filme de guerra? Um drama familiar? Outras incongruências (desde poblemas de continuidade a indefinições estranhas, como a cena do relatório de Fawcett ovacionado e vaiado no conselho) também deixam o público meio em suspenso - principalmente se pensarmos que, com suas 2h30min de exibição, as coisas poderiam ter sido melhor construídas.


Nina (Miller) e o pequeno Jack: vivendo as agruras de ser mulher no início do século XX

A enorme vontade de construir um épico fica evidente, principalmente nas cenas da selva. A crítica internacional parece ter gostado bastante, talvez por causa do fator "exótico", mas cá entre nós, eu não curti muito. Achei interessante, inclusive, ouvir palavras em bom português no longa (a fronteira entre Brasil e Bolívia é a região explorada por Fawcett), mas ainda senti um olhar mais distanciado do que aproximador das duas culturas (a europeia civilizada e a selvagem americana). O final grandioso expressa exatamente isso: é um tanto questionável e pouco emocionante, uma versão romantizada do possível motivo do desaparecimento do explorador que não deve convencer o público da mesma paixão que permeou a vida de Percy. Uma pena.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Piratas do Caribe - A maldição de Salazar


Piratas do Caribe - A Maldição de Salazar (Pirates of the Caribbean - Dead men tell no tales, 2017) veio provar que o tema ainda não se esgotou. Para sempre capitaneados por Jack Sparrow (criação inspiradíssima de Johnny Depp), a saga tem grandes chances de continuar nas telonas após a chegada de novos personagens.

Baseando-se na história desenvolvida nos três primeiros longas - em sua maior parte - o roteiro amplia a mitologia envolvida: agora o objeto de desejo de Henry Turner (Brenton Thwaine, de Deuses do Egito), filho de Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swan (Keira Knightley), é o tridente de Poseidon. Não, você não leu errado. Mitologia grega em Piratas do Caribe?! Dá samba, sim.


Na busca pelo artefato, que teria o poder de acabar com todas as maldições - e libertaria seu pai para sempre do Holandês Voador - Henry vai encontrar ajuda onde menos espera: depois de sobreviver ao encontro com o amaldiçoado Capitão Salazar (Javier Bardem, todo trabalhado no CGI), ele precisa encontrar Jack Sparrow para, com sua bússola mágica, encontrar o que mais deseja.

Obviamente, Jack está em apuros. A sequência inicial, aliás, que mostra como ele foi parar na cadeia (de novo!) é bastante divertida e grandiosa - embora "meio pastelão" e "megalomaníaca" sejam melhores adjetivos. Condenado à morte junto com Carina Smyth (Kaya Scodellario, de Maze Runner), uma moça estudiosa de ciências e justamente por isso considerada bruxa, é salvo no último minuto por Henry e sua antiga tripulação. Com a promessa dela de que sabe encontrar qualquer lugar no "mapa que nenhum homem pode ler" e com o perigoso Salazar em busca de vingança, o capitão Jack Sparrow vai  - com perdão do trocadilho - mergulhar de cabeça em uma nova aventura.


Mais empolgante que as sequências anteriores (os longas da franquia não conseguiram chegar nem perto do brilhantismo e divertimento do primeiro, A Maldição do Pérola Negra), o longa peca pelo excesso: que a Disney sabe usar CGI (efeitos especiais digitais), todo mundo já sabe - eles só precisam aprender quando não usar. Rejuvenescimento de atores consagrados parece ser a onda do momento (desculpem, não consigo evitar os trocadilhos), mas nem precisava. O visual do fundo do mar é lindo e assustador como deve ser, mas a cena se arrasta por clichês intermináveis. Menos é mais, gente.

Outro tiro no pé é o novo par romântico, que tenta refazer a química de Will e Elizabeth, porém sem sucesso. Mas os fãs ansiosos por ver as novas estripulias de Sparrow não ficarão decepcionados: o desfecho da trama e a sequente cena pós-créditos deixam ótimas "pulgas atrás da orelha" - que coelhos eles vão tirar da cartola se houver uma nova sequência?

O mérito de A vingaça de Salazar foi resgatar a esperança de que a franquia estava fadada ao fim. Apesar do desempenho irregular, voltei a querer esperar um novo filme dos piratas - e vamos ver até onde esse novo fôlego vai durar.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Rei Arthur - A lenda da espada


Esqueça tudo o que você sabe sobre o lendário rei bretão que tirou uma espada de uma pedra e tornou-se o rei mais famoso da História (embora seja bem provável que ele nem tenha sido rei, se realmente existiu). Rei Arhtur - A lenda da Espada (King Arthur, 2017) resolveu brincar com a lenda e criar uma nova gênese para o mito.

Com o reino sendo invadido por um grande feiticeiro maligno (e criaturas sinistras magicamente dominadas por ele) e que já havia destruído todos os outros reinos por onde passara, o rei * (Eric Bana) precisa ir a extremos para defender seu povo e sua família. Arriscando a própria vida, usa apenas a coragem e a mágica espada Excalibur para eliminar a ameaça. Tendo derrotado o inimigo, ele achava que conseguiria trazer paz a seu povo. Mas não foi bem isso o que aconteceu depois.

O irmão do rei, Mordred (Jude Law), parece insatiafeito com o desejo de paz do irmão. Acaba tramando contra o rei - que ainda tenta fugir, mas pouco pôde fazer contra um inimigo ainda mais poderoso que o feiticeiro. O bebê é o único que sobrevive, e acaba sendo criado por prostitutas na parte pobre do reino. E é lá que Arthur (Charlie Hunam) cresce e aprende tudo sobre sobrevivência. 

Alheio aos mandos e desmandos do rei, só quer saber de manter suas meninas a salvo. Porém, quando a maré baixa milagrosamente e deixa a espada encravada na pedra exposta, os dados do destino começam a rolar. O rei Mordred sabe do poder da espada, e que o herdeiro dela pode ser o único a impedir suas ambições. Todos os homens agora serão testados até que seu sobrinho se revele - e ele possa finalmente se livrar da competição. Mas Arthur não está sozinho contra a fúria do rei: seus amigos e outras ajudas inesperadas vão levá-lo a um encontro com a verdade e a magia.

A produção caprichada e repleta de efeitos especiais tem defeitos muito gritantes, mas uma coisa se sobressaiu dessa confusão de ideias equivocadas: desde o início fica claro para o espectador que o longa é uma grande brincadeira com a lenda. Portanto, se você não estiver esperando uma versão fiel da lenda vai conseguir se divertir. O diretor Guy Ritchie já provou que gosta do estilo ação ininterrupta e cenas épicas de batalha em slow motion (basta ver seus filmes de Sherlock Holmes com Robert Downey Jr. e Jude Law nos papeis principais pra ter uma noção), então abrace a loucura e divirta-se com elas. Sério, não tente levar o filme a sério.

Fahas graves no roteiro deixam muitos pontos sem nó, e o uso da magia fica barbaramente comprometido: sabe aquele "mas se podia fazer isso tudo, por quê não fez antes?!" que irrita a gente? Tem aos montes. Isso sem falar que a maga (que nem nome tem, coitada) é uma mistura de Merlin e Morgana que não deu certo, mas tá lá porque... Bem, ainda não sei. Achei que seria o par romântico do Arthur, mas nem isso ficou resolvido. Aliás, as mulheres nesse filme mal servem para os papeis de intrigueiras e beldades que geralmente filmes de guerra reservam para personagens femininas. Simplesmente parece que não sabem o que fazer com a mulheres. Muito estranho.

Soluções previsíveis acabam arruinando algumas imagens muito bonitas produzidas, além do excesso de efeitos especiais: às vezes a confusão é tanta, com fumaça e poeira, que nem dá pra ver os golpes em slow motion. O elenco também deixa muito a desejar - o único que eu gostei atuando foi Bana, em sua micro (e esquisita) participação. 

Como disse, procure esquecer isso e se divertir - até porque tem coisa à beça pra isso. Desde piadinhas bem colocadas ao tom de novela mexicana que a produção toma de vez em quando, é bem divertido - e creio que tenha sido intencional. Pessoalmente, adorei reconhecer Aidan Gillen (de Game of Thrones) no elenco e brincar de ficar de olho nele esperando o momento em que ele trairá o rei - uma vez Mindinho, sempre Mindinho, né?. No fim, Rei Arthur - A lenda da espada é uma diversão esquecível que pode irritar aos mais fervorosos fãs da lenda original. Eu escolhi me divertir e tomar um sorvete depois.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Rastro


Filme brasileiro de terror, a gente logo associa a Zé do Caixão, ícone-mor do gênero no país. Então, todos os outros filmes nacionais deveriam ser do mesmo estilo, certo? Errado. O Rastro (2017) é uma ótima tentativa de fazer algo diferente pelo terror nacional. Buscando uma estética mais parecida com o terror japonês e investindo numa trama que mescla suspense e sobrenatural, o longa de J. C Feyer não decepciona - porém, tampouco surpreende.

Na trama, João Rocha (Rafael Cardoso) é um jovem médico, casado com Leila (Leandra Leal) e prestes a ser pai. Seu trabalho agora é mais burocrático, trabalhando diretamente com a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. O hospital onde ele fez residência e onde seu amigo, Heitor (Jonas Bloch) trabalha, está prestes a ser fechado por conta da decadência: praticamente insalubre, funciona ainda graças à compaixão do doutor - que não quer deixar de atender à população.

Leila (Leal): grávida, pouco pode fazer para ajudar o marido João (Cardoso)

Com a decisão do secretário geral, e amigo de João, Ricardo (Felipe Camargo) em não aceitar mais nenhum paciente e fechar a unidade, João tem que lidar com um dilema: Júlia de Sousa (Natália Guedes) fora internada sem autorização por Heitor, como uma medida de impedir o fechamento do hospital. Apesar de aceitar a nova paciente, o mandato para as transferências de pacientes ocorre em meio a muita confusão. É quando João percebe não há registros de que a menina fora transferida que a ação começa.

O corredor guarda mais segredos do que João (Cardoso) consegue lidar
O espectador acompanha o desespero de João para obter informações, e descobre que a trama é muito maior que só o desaparecimento da pequena Júlia. Política, briga de egos, alucinações sobrenaturais, mortes - a espiral de desgraças só aumenta. Tudo está misturado, e a carga é forte demais para o jovem médico. Nesse ponto, o filme acerta em cheio: focar na visão parcial e confusa do personagem ajuda no processo de duvidar do que se vê - e, consequentemente, no impacto do desfecho.


Fantasmas e hospitais abandonados, receita certa para sustos

Porém quem estiver mais atento (ou for muito fã de filmes do gênero) já vai ter sacado o “pulo do gato” lá no início. E, para piorar, o argumento usado para justificar uma morte importante é plausível, mas improvável - e a gente sai com a impressão de que não funcionou bem essa “licença poética”, apesar de ter boa intenção e ser uma justificativa para a última cena. Mas o que mais incomodou mesmo foi o som: a gente já espera que venha aquele barulho alto no momento de susto para nos fazer pular da cadeira, mas ele estava extremamente alto (ao ponto de incomodar ao invés de assustar) e usado em algumas cenas despropositadas. Ou seja, menos seria muito mais nesse caso.

Ainda assim, não tiro o mérito desse filme: um esforço coletivo de produção, direção e elenco em fazer uma obra de um gênero muito pouco explorado no Brasil, e com um pano de fundo tão atual quanto o que vivemos atualmente no Estado, vale e muito o ingresso do cinema. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Alien - Covenant


Um meio termo entre Alien - O oitavo passageiro (1979) e Prometheus (2012), a sequência desse último é um bom híbrido - o que é até irônico, diga-se. Mantendo o mesmo clima de suspense do primeiro - e maravilhoso - longa, comete alguns tropeços bobos no caminho (como o seu predecessor), mas o resultado final é positivo. 

Criador e criatura: como "nasceu" David (Fassbender)

O filme começa com uma interessante sequência, onde criador (Guy Pearce) e criatura (o androide David, interpretado por Michael Fassbender) dialogam sobre a criação, a vida e tudo mais. Depois o filme começa de verdade. E aqui temos a nave colonizadora Covenant a caminho de um planeta com grande potencial para ser uma nova Terra. A bordo, sob os cuidados de Walter (Fassbender) - uma versão aprimorada de David - estão a tripulação da nave e 20 mil colonos, todos em hibernação. 




Ao chegarem ao misterioso novo planeta, com uma composição bem parecida com a da Terra, eles partem para explorar o lugar. Logo encontram a nave de onde partira o sinal, e descobrem se tratar da Prometheus, a nave em que a dra. Elisabeth Shaw (Noomi Rapace) havia partido para explorar o espaço. Porém alguns membros da equipe exploradora começaram e demonstrar os primeiros sinais de infecção por alguma coisa. Decidido a fugir do planeta o quanto antes, eles partem para o módulo de escape, mas o estrago já está feito. Enquanto esperam pela ajuda da Covenant no resgate dos sobreviventes, o grupo é novamente atacado por aliens - e seriam dizimados não fosse uma ajuda misteriosa.

Ainda sem saber se podiam confiar naquele salvador, precisam segui-lo. Ao chegarem na casa dele, descobrem sua identidade: ele é David, que havia sobrevivido ao desembarque naquele planeta - diferente da dra. Shaw. O misterioso David não parece nada confiável, e a equipe tem pressa em sair dali. E eles estão cobertos de razão.

Daniels (Waterston) e Oram (Crudp): duelo de liderança

Alien - Covenant tem em seu ponto forte manter o espírito intrigante do primeiro longa da série, e claro, no elenco principal. A escolha de Katherine Waterston (a Tina Goldenstein, de Animais Fantásticos e Onde Habitam) para o papel de Daniels é acertadíssima: a heroína improvável é forte e corajosa, embora não pareça; Fassbender dá o tom certo de personalidade robótica a dois diferentes androides (e a gente consegue distinguir quem é quem na tela), Crudup cria um capitão oscilante entre a responsabilidade e a fé bastante interessante. O alien em si está ainda mais interessante: quase humano e completamente bestial, supernojento e esperto até demais. Os fãs não devem se decepcionar. O que me irrita são os clichês.

Daniels (Waterston): ótima escolha para protagonista
A gente já sabe que a tripulação é grande para ir morrendo e deixar só os verdadeiros protagonistas vivos, mas né? Bem que podia haver uma variação na forma como eles são eliminados. Se o cara sai de perto do grupo, já sabemos que não vai sobreviver. Outra coisa que achei meio improvável é a equipe inteira ter ido explorar o planeta sem roupas especiais de proteção. Parecia que estavam indo, sei lá, pra um safári ao invés de irem explorar um planeta desconhecido. Mas ok, a gente deixa passar. 

O nascimento do alien: angustiante, como no primeiro longa

Há bons momentos de alívio cômico e muita homenagem ao longa original, o que torna o filme muito agradável - apesar de que, convenhamos, o tema não possa ser definido como relaxante. No fim, o resultado é megapositivo: Covenant fez juz à franquia a qual pertence, e deixa um intrigante gancho para sua sequência. Só nos resta esperar impacientes para ver o que vai acontecer.