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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça


As expectativas estavam altas para esse Liga da Justiça (2017) - principalmente por causa do medo da repetição dos fiascos de crítica de Batman vs Superman : A origem da Justiça (2016) e Esquadrão Suicida (2016). De fato, eu mesma tinha minhas dúvidas do que eles poderiam fazer para consertar as burradas nos filmes de 2016, mas parece que as coisas começaram a se acertar com Mulher Maravilha (2017) e, ao que parece, continuam a trilhar um bom caminho - e prometem muito mais na sequência.

Seguindo rastros de um mal maior
Ainda no espírito de “juntar o time”, a trama principal precisou ser um pouco mais resumida: vemos o Batman (Ben Affleck) no rastro de um enigma: insetos voadores que farejam medo e um recorrente e misterioso desenho de 3 caixas que ele havia descoberto entre as anotações de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) o levam a acreditar que uma ameaça maior está a caminho. A Mulher Maravilha (Gal Gadot) ainda está combatendo os vilões do dia-a-dia, mas logo a amazona receberá um aviso de algo mais urgente. As amazonas estão preocupadas com o comportamento estranho da Caixa Materna a que zelam, e logo elas terão que enfrentar um inimigo muito mais poderoso do que suas extraordinárias capacidades: O Lobo da Estepe (Ciáran Hinds, o Rei Pra Lá da Montanha de Game of Thrones).

Mulher Maravilha (Gadot) enfrenta o Lobo da Estepe (Hinds): luta entre deuses ainda é desequilibrada
Ambos herois entendem que o tempo está se esgotando e que é preciso recrutar mais ajuda – uma vez que o Superman (Henry Cavill) está morto, é necessário refazer uma antiga aliança entre os povos da Terra para enfrentar o disseminador do apocalipse. Mas como eles iriam exigir isso de um rei, de um jovem com problemas de socialização e um hibrido clandestino de humano e androide? Eles precisam contar a verdade, e é assim que eles vão atrás do Aquaman (Jason Momoa), o Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher). Decididos a impedir que o Lobo da Estepe tenha em suas mãos as três caixas, eles farão de tudo para evitar que a Terra seja destruída.

Liga reunida para a batalha final
Devo confessar que Liga da Justiça não chegou a superar minhas expectativas, mas o filme surpreende por ter melhorado muito o tom “supergrupo de herois” que eles tentaram em 2016 e que não foi bem o esperado. Era meio obvio que os mais conhecidos teriam mais espaço na trama, mas ainda assim foi empolgante assistir ao desenrolar da trama. Para um filme tão longo (e com produção tão conturbada), o resultado final acaba sendo satisfatório.

O futuro de Batman (Affleck) soa um pouco incerto, mas a Liga parece ter um bom futuro
Tem problemas? Alguns, mas é compreensível. Era preciso dar tempo para humanizar um pouco os heróis e fazê-los mais reconhecíveis para os não-fãs, e a receita mais usada para criar empatia com o público geralmente é o humor. Nesse caso, preciso louvar o desempenho do filme: apesar do personagem Flash ficar com boa parte do seu desempenho comprometida com o alívio cômico, ainda assim não é exagerado (e eu acredito que eles vão explorar mais o drama no filme solo dele), há bastante equilíbrio entre ação e humor. Mas a participação do reino de Atlântida ficou muito subdesenvolvida – era até desnecessária a participação de Mera (Amber Heard) – e apressada, sem realmente intrigar ao público. Cyborg talvez tenha sido o mais beneficiado dentre os “novatos” e dá para entender porquê.

Aquaman (Momoa): apesar de alguns bons momentos, mal disse a que veio
Houve bastante comoção entre fãs com algumas surpresas e cenas do longa, em especial à segunda cena pós-créditos (#ficaadica), e agora há uma grande expectativa para a sequência da Liga: menções ao maior vilão  da DC, Darkseid, e à Liga dos Lanternas Verdes fizeram a sala se tornar um estádio de futebol. Então, mesmo com muito o que se lapidar ainda, Liga de Justiça vale o ingresso, a pipoca e a espera.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Deserto


Deserto (Desierto, 2015) é um filme tenso. Passado todo no deserto que une (e divide) os Estados Unidos do México, o drama de Jonas Cuarón relata a estória de um grupo de imigrantes ilegais mexicanos tentando atravessar o deserto e que acabam encontrando um vigilante solitário - que acha que cumpre seu papel de proteger a pátria. Entre sol forte, promessas de uma vida nova, areia, sonhos pedras e cactus, a luta pela sobrevivência ganha novos significados.

Moisés (Gael García Bernal) faz parte de um grupo de mexicanos que embarca clandestinamente para os Estados Unidos. Quando o carro deles quebra no meio do deserto, as coisas saem do planejado: a rota muda e o destino de todos também. O grupo se divide e com ele permanecem um dos guias,  Mechas (Diego Cataño), Adela (Alondra Hidalgo) e Ramiro (Óscar Flores Guerrero) - uma jovem cujos pais sonhavam com sua segurança e a deixaram nas mãos de um atravessador - e Ulisses (David Peralta Arreola), que acabaram não conseguindo acompanhar o ritmo do outro guia e a maior parte do grupo. E o que parecia ser uma desvantagem tornou-se uma segunda chance para eles.

Moisés (Bernal) e Adela (Hidalgo): imaginar-se na pele deles nesse momento é algo aterrador
Sam (Jeffrey Jean Morgan) é um americano que costuma caçar no deserto - mas não exatamente como um caçador normal. Suas presas não são os animais que lá habitam, mas qualquer um que tente atravessar a fronteira de forma ilegal. Ele avista o grupo de Moisés e até comenta sobre eles com um dos patrulheiros locais, mas resolve agir por conta própria. Com a ajuda de seu cão de caça Tracker (sugestivo nome de Rastreador para um animal de estimação) ele começa a perseguição. Sem dó - e até com um terrível prazer em fazê-lo - ele abate o primeiro pelotão (que não tinha onde se esconder). Ao perceber que não tinha terminado com todo o grupo, ele embarca numa verdadeira caçada aos sobreviventes.

Embora não seja um filme com apelo comercial, Deserto tem um argumento bastante atual capaz de atrair a atenção do público: a busca por condições melhores de vida em solo estrangeiro. É um choque de realidade para quem nunca realmente pensou em como seria uma travessia dessas, nem nas expectativas que essas pessoas carregam. Mais do que isso, o filme é uma reflexão enorme sobre Poder: quem é mais poderoso? O homem americano e seus armamentos e táticas de guerra? O sonho dos que buscam um lugar melhor para viver? O deserto, que divide todos os que ousam desafiá-lo em sobreviventes ou não-sobreviventes?

O desempenho de Jeffrey Dean Morgan como o atirador Sam é sensacional
Com personagens extremamente humanos (mesmo na monstruosa desumanidade do preconceito de Sam, é possível enxergar ali um homem de espírito quebrado e mentalidade distorcida), é difícil ser indiferente aos personagens de Cuarón. Mesmo sendo lançado aqui no país dois anos após sua realização, o longa traz um diálogo bastante atual - principalmente em um Estados Unidos da era Trump. Vale a pena conferir a belíssima fotografia de Damián García e o ótimo desempenho de Jeffrey Dean Morgan. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok


Do universo cinematográfico da Marvel, os filmes do Deus do Trovão sempre foram os mais "engraçadinhos". Isso fica bem evidente nesta terceira aventura solo do heroi, Thor: Ragnarok (2017). Para quem espera algo mais sombrio (afinal, o Ragnarok está associado ao apocalipse mitológico) deve estranhar o visual bastante colorido do início ao fim e o tom quase infantil de humor - nada que estrague o desenrolar do filme, mas que pouco contribui para o entendimento da trama. Apesar de alguns defeitos incômodos, como a falta de destaque para os vilões e o clima meio forçado de humor, o filme ainda é mais consistente e impactante que os dois antecessores.

Hela (Blanchett): sinistra e cheia de ressentimento no coração

Em linhas gerais, temos a trama circulando entre os herdeiros de Asgard: Thor (Chris Hemsworth), Loki (Tom Hiddlestone) - que apesar de adotado por Odin (Anthony Hopkings) é considerado por este como um filho legítimo - e Hela (Cate Blanchett), a primogênita do deus-supremo. Sim, você não leu errado: Thor e Loki tem uma irmã mais velha, e ela só é mais poderosa até que o Pai de Todos. Trancafiada por séculos, alimentou um ódio terrível pelo pai Odin enquanto ele governava os nove reinos sem ela; porém como Hela estava longe de Asgard (a fonte de seu poder), ela precisava esperar uma oportunidade de voltar. Quando Loki toma o trono de Odin ao final de Thor - O Mundo Sombrio (2013), Asgard fica desprotegida e a Deusa da Morte tem a oportunidade de voltar. Com os sonhos proféticos de Thor se tornando realidade, ele precisa correr contra o tempo para impedir que Asgard seja destruída para sempre.

Com o reino em perigo e sem Thor (Hemsworth) e Odin (Hopkins) para protegê-lo, resta a Heimdell (Elba) a tarefa de defender Asgard
Muita coisa acontece nesse meio-tempo: um encontro-relâmpago com o Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch), o mágico martelo Mijölnir é destruído por Hela, Thor acaba sendo levado como um competidor ao estilo gladiador para o planeta Sakaaran e enfrenta o Hulk (Mark Ruffalo) para delírio da plateia, uma Valquíria (Tessa Thompson) rebelde - das mitológicas filhas-guerreiras de Odin, equivalente às amazonas gregas - irá se juntar ao grupo de Thor para proteger Asgard. Aliás, é em Sakaaran que estão os personagens mais bacanas: o Grão-Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e o lutador - e pseudo revolucionário - Korg (voz do diretor Taika Waititi) são as coisas mais legais do planeta: são realmente divertidos, sem que haja um esforço muito evidente para o humor acontecer. Em Asgard, há ainda Heimdell (Idris Elba) liderando a resistência contra a nova rainha e o indeciso Skurge (Karl Urban), que não sabe muito bem em que lado quer ficar - mas que é capaz de qualquer coisa para salvar a própria pele. 

Grão-Mestre (Goldblum) e Loki (Hiddlestone) assistindo à luta de Thor e Hulk (Ruffalo): sequência divertida em Sakaaran
Levando em conta a diversão acima de tudo, o filme se propõe a entreter e ser assumidamente um passatempo. O elenco inteiro parece se divertir enquanto trabalha, e devo aplaudir a atuação de Blanchett. Não que eu duvidasse da capacidade dela, muito pelo contrário; mas como todo grande vilão megalomaníaco, eu temi que ela ficasse caricata. Não foi o que aconteceu (ainda bem!), mas fiquei bastante decepcionada com dois fatores: a falta de destaque para sua personagem na trama e os efeitos digitais nas cenas de luta da vilã. É tão evidente que não é um humano performando aqueles movimentos que dá até dó - custava colocar uma dublê para isso? 

Sturge (Urban) e Hela em Asgard: vilões pouco explorados
Mas, se é para falar de efeitos especiais, esse é apenas um pequeno defeito em um universo muito maior dentro do filme. As criaturas em CGI são magníficas em detalhes, e o visual geral resulta em algo espetacular. Nesse ponto, devo dar os devidos créditos ao diretor Taika Waititi: ele se propôs a fazer um filme divertido e bonito, e conseguiu os dois. Apesar de eu ter rido bastante durante a exibição - principalmente quando as piadas eram mais sutis, diga-se - eu acredito que este filme não vai ficar na memória por muito tempo. Pior, não vai ser daqueles que a gente não se cansa de rever. E também senti falta de um tom mais apocalíptico, afinal o nome nos leva a crer que haverá uma ameaça iminente pairando sobre a cabeça de Thor o filme inteiro - mas não é essa a sensação que fica. No fim, saí do cinema com uma confusa sensação de ter gostado do longa, mas não ter me empolgado tanto quanto achei que ficaria - além de achar que ele logo cairá no esquecimento.

Valkíria (Thompson) em um bar de Sakaaran: visual colorido e impactante
Ainda assim, é uma experiência digna de ver na telona. Duas cenas de ação tem a maravilhosa trilha sonora de Led Zeppelin (The Immigrant Song) e nos deixam com o coração acelerado conforme a tensão da música combina com os eventos da tela. Tem lá seus momentos de importância para o grand finale que será Guerra Infinita, mas o foco passa longe disso. Menos "drama familiar" que Guardiões das Galáxias Vol. 2Thor: Ragnarok é uma boa pedida para um cinema em família pois deve agradar desde os pequenos até os adultos fãs da franquia. 

P.s.: Algumas sequências bastante divertidas merecem destaque, além das já habituais cenas pós créditos para ficar de olho (são duas nesse filme): atenção para as cenas onde Loki aparece, em toda a parte da arena gladiadora de Sakaaran, e na hilária representação teatral em Asgard que acontece logo no início. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tempestade - Planeta em Fúria


Da seara de "filmes-catástrofe", o que a gente espera? Muita destruição em massa, cenas de fuga alucinante e um final feliz. Tempestade - Planeta em Fúria (Geostorm, 2017) tem tudo isso, mas parece que a receita desandou em algum ponto. Para começar, acho que essa história do "único homem capaz de resolver os problemas e salvar o mundo" já está muito batida e fora de uso. A era dos lobos solitários defensores da humanidade já ficou para trás, lá em 1990/2000. No século XXI tem muito mais condições de conseguir resolver os problemas em grupo. Mas, vamos lá.

A sobrevivência do nosso frágil ecossistema depende agora da monitoria de satélites espaciais - e do bom relacionamento entre dois irmãos, Jake (Gerard Buttler) e Max (Jim Sturgess) Lawson. Max, o mais novo, precisa cuidar do gênio forte do irmão Jake, o responsável técnico da Dutch Boy - a estação espacial responsável pelo controle da rede planetária de satélites que monitoram as mudanças climáticas - porém nem sempre é ouvido ou respeitado. Assim, Jake acaba sendo expulso do programa enquanto Max é promovido, o que racha a já frágil conexão entre eles.

Já imaginou uma cidade no deserto completamente congelada?
Mas um misterioso incidente metorológico acontece: uma cidade afegã foi completamente congelada, causada por um aparente defeito no satélite que a monitorava. Pouco tempo depois foi a vez de Hong Kong sofrer com uma aparente explosão de gás desproporcional (provavelmente causado pelo satélite da cidade), e a suspeita de um defeito crítico na Dutch Boy leva o conselho do presidente Palma (Andy Garcia) a ceder e chamar Jake de volta. Mesmo receoso de reencontrar o irmão após anos sem falar com ele, Max recebe de Dekkom (Ed Harris), o Secretário de Defesa, a missão de convencê-lo a consertar a estação, pois era primordial para a política do país entregar para o Conselho Internacional um aparelho funcional.


Depois de certa relutância, Jake aceita voltar à estação que ele praticamente criou. Ao chegar na estação, as coisas estão um pouco diferentes: a comandante Ute Fassbinder (Alexandra Maria Lara) apresenta a nova equipe e as novas circunstâncias da Dutch Boy. Alguns acidentes envolvendo a tripulação levam Jake a pensar em uma espécie de sabotagem - e ele vai precisar da ajuda do irmão para conseguir descobrir quem está por trás disso e impedir que as alterações criadas pela estação espacial desencadeiem uma reação catastrófica que pode dizimar a vida na Terra.

A tripulação só podia assistir à catástrofe na Terra: o tempo para salvar o mundo está acabando

Então temos um cenário bastante alarmante e uma boa premissa, com pano de fundo político intrigante e um elenco estelar. Mas a coisa toda é tão previsível que nem as piadas (supostamente inseridas para aliviar a tensão inexistente) servem para divertir. De fato, as gracinhas feitas com filmes e personagens anteriores de Buttler (como batizar os satélites de "rock'n'rolla", mesmo nome de um famoso filme em que ele era protagonista) seriam mais bem aproveitadas se houvesse algo mais prender a atenção da gente. As falas são piegas, as atuações são sofríveis - especialmente as de Abbie Cornish, que faz Sara Wilson (namorada de Max e chefe de segurança do presidente Palma) e Andy Garcia, que está tão burocrático que chega a incomodar. Nenhuma das "viradas" do roteiro é realmente surpreendente. 

Ute (Lara) e Jake (Buttler): unindo forças para salvar o planeta
Apesar disso, os efeitos especiais apocalípticos são muito bons, e isso eu preciso reconhecer. A destruição do planeta (e aqui incluo uma impagável cena de catástrofe na praia de Copacabana) é caprichada, mas só isso não é o suficiente para fazer o filme funcionar. De fato, acho que o maior problema é que o diretor e roteirista Dean Devlin quis passar uma mensagem maior em um filme de ação, mas não conseguiu atingir o alvo. A ideia de que um inimigo em comum (no caso, a natureza em fúria) seria um elo para redimir a humanidade já está mais do que desgastado e a trama política que deveria sustentar o arco mais denso é frágil demais. Tempestade - Planeta em Fúria é um filme que vai passar em branco, mas que pode agradar a quem é fã do gênero.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Além da Morte


A proposta de Além da Morte (Flatliners, 2017) é ser um filme de suspense diferente. O que chega a ser uma pena, porque enquanto o diretor Niels Arden Oplev (Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Mr. Robot) se propõe a fazer o famoso "feijão com arroz" que o gênero pede de forma impeável, o filme anda com muita desenvoltura e sucesso - mas é justamente na hora do "fazer diferente" que ele desanda. O final meio esquisito do roteiro de Ben Ripley é que estraga, porque tinha em mãos excelentes produção, diretor e elenco para fazer deste, talvez, um bom exemplo de filme de gênero. 

O grupo de estudantes pesquisadores: resultados empolgantes porém perigosos
Courtney (Ellen Page) é uma estudante de medicina que sobreviveu a um acidente de carro há alguns anos, no qual sua irmã mais nova, Tessa (Madison Brydges), acabou morrendo. Enquanto faz residência no hospital universitário, ela fica obcecada pelo que acontece no pós-morte. Determinada a fazer experiências sobre o tema, ela acaba atraindo seus amigos Sophia (Kiersey Clemons, que será Iris West no próximo filme do The Flash), Jamie (James Northon, de Rush - No Limite da Emoção), Marlo (Nina Dobrev, do seriado de tv Vampire Diaries) e Ray (Diego Luna) para participarem do perigoso processo.

Como são todos médicos residentes, ela confia que eles terão sucesso em trazê-la de volta após uma morte controlada e conseguir mapear o que acontece em seu cérebro nesse período. Mesmo que uns estivessem mais assustados, outros animados, ou até relutantes, todos acabam envolvidos no procedimento. E uma vez que Courtney retorna, a maioria quer participar - principalmente porque, depois do experimento, a jovem parecia ter se tornado um gênio da medicina. Mas nem tudo são flores: os próximos colegas a passar pela experiência e a própria Courtney vão descobrir que a mente pode pregar peças muito perigosas quando ativada daquela forma.

Ray (Luna), Marlo (Dobrev) e Courtney (Page): encabeçando o bom elenco

Dito isso, preciso completar que, até aqui - com os amigos aprofundando os laços de amizade e descobrindo os riscos de se experimentar a morte controlada - o filme consegue prender a atenção. Até mesmo quando os fantasmas dos passados vêem atormentar os que passaram pela experiência é bacana: clichês como "o barulho na casa quando o personagem deveria estar sozinho" e as alucinações que eles sofrem são bem feitas, criando o clima perfeito de tensão e não tem nada de gratuitas. Ponto muito positivo. O problema aqui é a resolução final. Soa boba, depois de tudo o que eles passaram até ali - além de frustrar o espectador por não entregar o banho de sangue prometido pelo crescente clima sombrio. Uma pena.

Kiefer Sutherland faz uma ponta como o médico professor do grupo: homenagem ao longa de 1990
O elenco, encabeçado por Page, Luna e Dobrev dá conta do recado. A tímida participação de Kiefer Sutherland é quase desnecessária, porém é uma homenagem à versão original de 1990 do longa (Linha Mortal, para nós), que tinha ainda Julia Roberts, Kevin Bacon e William Baldwin sob direção de Joel Schumacher (cujo trailler, aliás, me deu vontade de ver essa pérola). No fim, Além da Morte é um bom passatempo, mas será facilmente esquecido após o fim da sessão. 

sábado, 14 de outubro de 2017

Pequena Grande Vida



Contando com muito bom humor, Pequena Grande Vida (Downsizing, 2018*) é um olhar crítico sobre a hipocrisia. Em tempos de Trump no governo americano falando em "tornar os Estados Unidos grande de novo" e as tecnologias e discursos engajados - porém pouco eficientes - para salvar o planeta da destruição, o diretor Alexander Payne não tem medo de pôr o dedo na ferida.

Após uma experiência científica revolucionária - pela primeira vez a ciência conseguiu reduzir pessoas e animais sem que houvesse qualquer prejuízo na saúde destes - o mundo mudaria para sempre: se toda a população aceitasse diminuir, não haveria mais problemas com escassez de alimentos. Vivendo em cidades menores, produzindo menos lixo, consumindo muito menos do que pessoas de tamanho normal, essa seria a solução para os problemas do mundo. Certo? Vejamos.

Dez anos depois, a miniaturização já é uma realidade. Várias comunidades espalhadas pelo mundo são prósperas e vendem a ideia do "sonho americano" como água no deserto - afinal, o pouco dinheiro no mundo grande se torna uma fortuna quando você aceita se miniaturizar. Quem não quer viver uma vida de luxo, segurança e conforto? Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig) são um casal como outro qualquer. Empolgados pela iniciativa de fazer o mundo melhor e pela oportunidade de finalmente conquistar uma vida boa, eles aceitam o processo. Mas nem tudo acaba sendo como eles imaginaram.

E aí temos esta pérola: uma pequena alfinetada, polida e redondinha, para a gente entender que nem sempre as boas intenções são suficientes - e que nem sempre o que parece altruísmo o é de verdade. As doses generosas de crítica bem humorada nos levam a refletir sobre as relações humanas em vários níveis, e o quanto nossas ações são mais importantes que nossa palavra. De forma leve e divertida, o Payne nos faz pensar sobre assuntos tão pertinentes - e isso foi o que mais me encantou neste longa.

Em um filme recheado de participações especiais (e algumas caras conhecidas do público, como o ator português Joaquim de Almeida e o eterno Dawson do seriado, James Van Der Beek), as atuações de Hong Chau como Ngoc Lan Tran, uma ex-prisioneira vietnamita, e de Christoph Waltz como Dusan, o novo vizinho  excêntrico de Paul, são a cereja do bolo. A partir do momento em que a personagem de Chau entra em cena, o filme é dela. Waltz é um caso à parte: basta um sorriso e ele já disse a que veio (desculpem, sou fã assumida - mas ele é maravilhoso mesmo.) Matt Damon também não fica atrás, dando conta de seu "ingênuo homem-comum" com bastante credibilidade.

Pequena Grande Vida é um filme diferente, que traz elementos de comédia normal disfarçando uma reflexão profunda sobre a sociedade e o futuro da humanidade. Com certeza vale a pipoca do fim de semana.

*O filme terá exibição nesta edição do Festival do Rio nos dias 13, 14 e 15/10. Depois dessas, só no lançamento oficial em janeiro de 2018. Se estiver na cidade, não perca a oportunidade!

domingo, 8 de outubro de 2017

A Forma da Água

Eu só tenho a agradecer a Guillermo del Toro por esse presente. É assim como me sinto depois de assistir a essa delícia de filme que é A Forma da Água (The shape of water, 2018). O longa estreia em janeiro de 2018, porém eu tive o privilégio de assistir à primeira exibição dele durante a abertura do Festival do Rio 2017. E ele já se tornou um dos meus favoritos de todoa os tempos.

No longa, del Toro nos conta uma linda e emocionante fábula: Eliza Esposito (Sally Hawkings) é uma mulher comum que tem um problema de fala, o que não a impede de ter uma vida normal. Alternando as visitas a seu recluso vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) e seu turno noturno de trabalho em uma base científica secreta, ela sobrevive apesar das dificuldades. Um dia, porém, um novo projeto científico chega à base e sua vida mudará por completo. Uma criatura capturada na Amazônia foi levada para lá afim de ser estudada, e uma improvável amizade entre eles nascerá.

Sobre essa premissa, del Toro discute profundos temas como sexualidade, beleza, auto-conhecimento, humanidade e divindade, poder, racismo e preconceito - tudo azeitado com muito bom humor e delicadeza. O longa é o que eu descreveria como um poema e um sonho combinados, um surrealismo poético que emociona e alcança o público como poucos. Seus personagens são tão cativantes em suas diferentes personalidades que é quase impossível não se apegar a eles.

Todo o elenco é magnífico, e as atuações delicadas só reforçam a empatia com os personagens. Eles parecem humanos, reais, mesmo que estejamos presenciando um conto de fadas. Destaco as interpretações de Hawkings e Octavia Spencer, que fez de sua Zelda um delicioso contraponto à quieta amiga de trabalho. Michael Shannon também merece ser mencionado por dar vida ao vilão Strickland, um homem que consegue resumir em suas contradições o que há de pior em nossa sociedade.


Nem preciso mencionar o primor que é a fotografia e produção de arte, que nos mergulha (com perdão do trocadilho) no universo meio mágico, meio Guerra Fria. Um belo subtexto aqui, pois o tempo era de resistência à mudanças enquanto havia esperança de um mundo melhor, mesmo que as ações fossem regidas pelo medo e nem sempre terminassem como se esperava. Aliás, há muito o que se ler nas entrelinhas desse filme.

Uma belíssima obra, de uma sutileza e impacto como poucos filmes recentes conseguiram trazer à tela - e à tona. A Forma da Água é o que eu acredito que o cinema é: poesia e emoção, que faz pensar e repensar nossa forma de ver o mundo, de agir. Ansiosa para vê-lo novamente. Vem logo, 2018!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049


Sabe aquele medo de ver uma sequência que estraga o original? Pois esqueça. Blade Runner 2049 (2017) é daqueles filmes que vão agradar aos fãs mais fervorosos e ainda deve arrastar mais um monte de gente para o universo futurista e decadente dos androides. Denis Villeneuve homenageia o original de Riddley Scott, mas não perde o foco quase dissecador em seus protagonistas. Assim, o questionamento iniciado no primeiro longa é ampliado: o que é ser humano?

K (Ryan Gosling) é o melhor caçador de androides em atividade e está em seu ambiente de trabalho. Procurando pelos últimos exemplares dos Nexus rebeldes (androides que se recusavam a ter prazo de validade), ele encontra uma pista que poderá mudar para sempre a História. Pressionado por sua chefe a eliminar evidências antes que o caso se espalhe, acaba sendo vigiado pela empresa que fabricou os androides com "defeito": eles tem outros planos para a descoberta que K fez.

K (Gosling) e Joi (de Armas): um amor complicado
O longa tem um ritmo diferente dos atuais filmes de ficção científica: contado de forma linear, de modo a deixar o público captar as entrelinhas das cenas ao invés de bombardeá-lo com informações e palavras difíceis de entender. As longas pausas entre diálogos nos mergulham na paisagem caótica e na emoção dos personagens, o que para mim foi um acerto enorme. Essa forma mais lenta, noir, de narrativa pode cansar o espectador mais ansioso por ação. Superada essa barreira, o filme é um prato cheio para conversas pós-sessão.

Metalinguagem na fotografia: homenagem ao original, porém mudando ligeiramente o foco

Eu senti como se o universo tivesse se expandindo: questionando os questionamentos, a dúvida é a única certeza. O que é verdade naquela rede de informações? Como androides podem ser tão ou mais humanos que os humanos? (aliás, ainda existem humanos na Terra ou todos já abandonaram o planeta arruinado para a nova espécie?) Metáforas profundas e belas sobre relacionamento, sentimento, a angustiante busca pelo verdadeiro conhecimento de si próprio. Tudo isso em diálogos curtos e longos takes de tirar o fôlego: a fotografia é soberba, mesclando luz e escuridão, dia e noite; detalhes incríveis e desfoques intencionais - como se nos dissesse "você não tem uma visão clara da situação". No mínimo, vai ser impactante.

K e Luv (Hoetz): criaturas indo encontrar seu criador
O elenco está ótimo, com todos os atores entregando atuações primorosas - com destaque para Dave Bautista (conhecido por ser o Drax de Guardiões das Galáxias, prova que não é só músculos e piadas em sua pequena porém importante participação), Ana de Armas e sua apaixonada Joi (uma holograma), e Sylvia Hoeks, que faz de sua androide Luv uma das melhores coisas desse filme. A exceção é Jared Leto. Pode parecer perseguição ou implicância minha, mas Leto não acertou o tom (de novo) como um vilão. Quem já o viu em Réquiem Para um Sonho ou Clube de Compras Dallas sabe que ele é melhor do que o que apresentou. Mas nem isso atrapalha o andamento do filme, que sabe segurar bem os ases nas mangas e soltar na hora certa a bomba (atômica) no colo do espectador.

Jared Leto como Niander Wallace: trejeitos ficaram artificiais, porém não comprometem o personagem

O mais interessante de Blade Runner 2049 é que ele funciona para quem é fã do primeiro longa, mas também para quem nunca viu o original. Fica bem claro que ele foi feito para (e por) apaixonados pelo longa original e pelo livro que o inspirou, mas ele se permite ser acessível para quem não os conhece. É fato que alguns detalhes vão passar despercebidos, mas o entendimento geral da estória está claro para todos - até porque o questionamento "Quem sou eu? De onde eu vim? Qual é a minha missão?" é universal. Mais do que recomendado, ele chega às telonas com status de OBRIGATÓRIO na lista de qualquer cinéfilo que se preze. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Kingsman - O Círculo Dourado

Precisei de uma pausa para apreciar a genialidade desse filme: muito além do puro entretenimento de filmes de ação, Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman – The Golden Circle, 2017) é a sequência de Kingsman – O Serviço Secreto, sucesso de 2014, e consegue ser ainda mais interessante que seu antecessor.  As críticas ao comportamento social e ao próprio gênero de filme de ação/espião estão ainda mais ácidas e divertidas, e as mais de 2h de filme passam sem que o espectador se canse – e ainda termine querendo mais.


Um aviso: como o roteiro segue com as consequências diretas dos acontecimentos do primeiro longa, essa resenha pode conter alguns spoilers (mas acho difícil encontrar alguma outra que seja 100% spoiler free). Prometo fazer o possível para não entregar demais.

Depois de salvar o mundo da destruição pelo plano maligno de Valentine (Samuel L. Jackson), Egsy (Taron Egerton) assumiu o posto de Galahad - que era de Harry (Colin Firth) - na Kingsman e segue a rotina de um espião da agência. O que ele não esperava era ser atacado por um ex-recruta, Charlie (Edward Holcroft). Ele acreditava que o rapaz tinha morrido na festa de Valentine, mas ele estava muito vivo – e com um braço mecânico, ainda por cima! Depois de uma alucinante luta para salvar a própria pele dentro de um táxi, Egsy consegue escapar e ainda chegar a um local seguro no Hyde Park. O que ninguém esperava é que o braço mecânico perdido no carro fosse capaz de hackear o sistema da Kingsman. Um desastre está para acontecer: com base nos endereços encontrados ali, todas as casas de todos os agentes da Kingsman, inclusive a sede, são destruídos por mísseis teleguiados.

Egsy (Egerton): o que fazer agora?
Egsy se salva por simplesmente não estar em casa no momento do acidente, mas nenhum outro agente escapa – nem mesmo Arthur (Michael Gambon, substituindo Michael Caine no cargo) e Roxy (Sofie Cookson), a Lancelot. Arrasado, Egsy encontra ajuda no único outro sobrevivente do massacre: Merlin (Mark Strong, excelente). Juntos, eles precisam por em ação o protocolo final. A ajuda vem do jeito que eles menos esperavam: uma agência irmã, nos Estados Unidos, seria a última saída. O contato, porém, não foi muito amigável a princípio.

A Statesman é a agência de inteligência secreta americana, e se esconde sob a fachada de uma destilaria. Passada a desconfiança inicial (que inclui uma surreal e divertida sequência de “reconhecimento” à americana, do tipo “atire primeiro, pergunte depois”), ambas agências passam a trabalhar juntas com a pouca informação que Roxy conseguiu buscar: o palpite da falecida agente era de que o Círculo Dourado, uma organização de tráfico de drogas, estaria de alguma forma envolvida com o estado atual de Charlie – e, consequentemente, com o desastre que veio acontecer depois. Logo a suspeita se comprova acertada.

Os agentes da Statesman tem os melhores codinomes!
Poppy (Juliane Moore, deliciosamente macabra) se revela como a chefe da organização de um jeito bastante inusitado: num anúncio na TV, ela avisa à população que contaminou suas drogas propositalmente com um vírus e o único antídoto está sob sua guarda. O que ela espera em troca da cura é que o presidente dos Estados Unidos descriminalize o uso de narcóticos. Assim que o decreto estiver assinado, ela liberaria o antídoto para todos os países atingidos (o que seria praticamente o mundo todo). Mais uma vez cabe a Egsy agir para salvar o mundo de um maluco megalomaníaco, e dessa vez ele tem motivos mais pessoais ainda para parar Poppy.

Poppy (Moore): quem vê cara...
Como prometido, tentei segurar as melhores partes para deixar surpresas para quem for ao cinema - quanto ao personagem de Colin Firth, os posteres entregam um pouquinho do que acontece porém não vou estragar a forma como ele surge na trama. O roteiro é um primor: não há “barrigas” ou excessos, alternância de ritmo com cenas de ação e pura emoção, toneladas de sarcasmo para todos os lados (do american way of life ao cavalheirismo inglês, passando pelas relações amorosas nos dias atuais e clichês dos gêneros cinematográficos, não há perdão para ninguém) e nenhuma ponta solta. São várias as cenas memoráveis, principalmente as que têm participação especial de Elton John (essa nem foi spoiler, porque o nome dele está no cartaz!) e as que se passam na Casa Branca. Aqui vale uma dica: esteja atento ao noticiário internacional e conseguirá entender as piadas internas mais escrachadas e bem executadas que eu já vi na vida. Um adendo: Pedro Pascal (o eterno Oberyn, de Game of Thrones) faz uma participação muito maior do que eu esperava - e é hilário ver como um não-americano absorve e se orgulha das "americanices".

Agente Whisky (Pascal): representando o american pride (!)
Há também algumas coisas um tanto questionáveis, como a sequência na tenda do show no Festival de Glastonbury, por exemplo. Mas se lembrarmos que esse é um filme que tira sarro das coisas justamente exagerando e carregando nas tintas, percebemos que o grotesco ali foi usado para incomodar mesmo – para nos fazer se perguntar “nossa, mas era mesmo necessário?” não só ali, naquele momento, mas em todos os outros em que aparecem em outros filmes. Simplesmente genial.

Se você não acha que um lança-míssil disfarçado em maleta de grife é um exemplo da sátira descarada, então precisa rever seus conceitos
A sessão a que assistimos foi em 3D, porém acredito que não tenha sido necessário. Quem já viu o primeiro longa, sabe que a ação alucinante é uma marca registrada da franquia e não precisa de efeito nenhum além do que já está em cena. A franquia, aliás, que promete ser expandida – e o público agradece. Pessoalmente eu não conheço os quadrinhos que inspiraram essa maravilha cinematográfica, mas acredito que o diretor Matthew Vaughn tenha feito um bom trabalho ao traduzir novamente os quadrinhos para a telona. Vaughn também merece créditos por conseguir entregar um trabalho tão denso com tanto bom humor; um produto que vai além do entretenimento por si só – e que tampouco falha em ser só entretenimento. Aproveitando o tom do filme, me arrisco a um trocadilho super clichê: um tiro certeiro, em todos os alvos. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Columbus

Columbus (Columbus, 2017) é o típico caso de um artista que se deixa inspirar pelo ambiente e o transborda na sua arte. O diretor coreano naturalizado americano Kogonada se apaixonou pela cidade de mesmo nome e dela sentiu fluirem tema, estória, personagens. E que conflitos e reflexões uma visita a uma pacata cidadezinha no interior dos Estados Unidos pode refletir! É nesse delicado viés que o filme transita.

Casey (Haley Lu Richardson, maravillhosa) é uma jovem apaixonada por arquitetura. Sua cidade é basicamente a meca para arquitetos e amantes da arte: vários prédios de influência modernista acabam por costurar a vida pacata e sonhadora da garota com a de Jin (John Cho, excelente). Ele é filho de um renomado arquiteto, que estava na cidade para uma palestra quando teve um mau súbito e precisou ficar internado. Os dois não podiam ser mais diferentes nem mais parecidos.

Uma forte amizade nasce em torno da presença/ausência dele. Casey sonha em ser arquiteta, ou ao menos uma guia de turismo especializada em arquitetura; ele não suporta mais o tema por ter sido (talvez) a única paixão de seu pai. Conforme ela se demonstra encantada e conhecedora, ele sente a evidência do quanto essa paixão que ela também reflete o afastou do pai. A diferença de idade entre eles também traz outra visão sobre a cidade, porém não da maneira que se espera. Ele não quer ficar por lá, ela não pensa em sair.

E essas diferença se evidenciam, se aprofundam e, estranhamente, os aproximam. É como se os dois fossem a versão que o outro gostaria de ser, na ilusão de que a vida teria sido bem mais fácil se assim o fora - apesar de focar evidente que não seria.

A forma delicada com que o diretor conduz a narrativa expressa o seu receio quanto ao sutil equilíbrio entre vida e morte - mesmo que dentro de si próprio - e a inevitabilidade das coisas é tocante. A fotografia não podia deixar de ser menos caprichada, especialmente em um filme que tem a forte estrutura modernista como pano de fundo e metáfora, e o elenco não podia ser mais acertado.
Columbus é um filme de arte, sutil como poucos. Não há arroubos cênicos, nem um ritmo descontruído - é a sensação da existência passando, às vezes até mesmo da perda de tempo em não fazer acontecer nada. É intenso, e pode não ser perfeito - mas é equilibrado, exatamente como a arquitetura modernista. Uma experiência diferete, especialmente para quem está acostumado a só ver blockbusters de roteiros saturados e repetitivos. Merece a sua atenção e, principalmente, a sua reflexão.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Atômica

Atômica (Atomic Blonde, 2017) me deixou seriamente dividida. Enquanto uma parte de mim ficou muito empolgada pela belíssima fotografia, a excelente trilha sonora e o pano de fundo interessante para uma estória de espiões, o fetichismo e o final previsível acabaram por tirar muito do brilho do longa. Mas vamos por partes.


A premissa é: uma lista contendo todos os nomes de agentes de todos os serviços secretos (e suas operações) que estava em mãos de um agente britânico foi perdida e há muitos interessados nela. A agente Lorraine Brought (Charlize Theron, em atuação enérgica e convincente) é selecionada pelo serviço britânico para resolver o problema. Ela é enviada a Berlim, às vésperas da queda do muro, para procurar outro agente aliado, David Percival (James McAvoy, a gente já se acostumou a vê-lo entregar-se completamente aos papeis que interpreta). 

Lorraine (Theron) e Percival (McAvoy): aliados em Berlim - ou não?
Acontece que Percival não é exatamente alguém confiável. Para completar, paira sobre eles uma ameaça chamada Satchel, um agente duplo que ninguém sabe quem é ou para quem trabalha - e que pode arruinar de vez a missão de Lorraine. Querendo descobrir mais sobre o que realmente aconteceu com o agente que perdeu a lista (por motivos pessoais), Lorraine se compromete a ficar mais tempo em solo alemão e ameaça por em risco toda a operação para correr atrás da verdade. 

O interrogatório dura todo o filme: narrativa em flashback intercalado com o depoimento de Lorraine
Em linhas gerais, a trama é empolgante assim. Some-se a isso uma trilha sonora empolgante, uma produção de arte e figurinos acima da média, a fotografia bonita e funcional (mudando de acordo com o humor da personagem e o clima da cena), cenas de ação empolgantes e boas atuações de todo o elenco. Eu não esperava menos que isso, e foi o que me entregaram. Só que Atômica não superou minhas expectativas. O roteiro, apesar de bem executado, é apenas correto - e as soluções para surpreender a plateia realmente não funcionam. Quem já viu filmes de espiões saca na hora que tem caroço naquele angu (e que a gente deve sempre "confiar desconfiando"). 

Charlize fez a maioria das suas cenas de ação: mandou muito bem!
A montagem do longa, que conta a estória a partir do relatório "pós-confusão" (para ficar com uma palavra fofa), ajuda a manter o mistério, brincando com a memória do espectador e reforçando a veia detetive do público. Mas aí entra em campo um fator bastante incômodo - pelo menos para a audiência feminina: o fetiche. Lorraine é uma espiã extraordinária, com habilidades incríveis e astúcia. É lógico que usará de seu poder de sedução em algum momento, mas até na hora de enfrentar um relatório filmado ela precisa fumar sensualmente? Fica ainda mais difícil acreditar quando a gente lembra que a própria Charlize fez a magnífica Imperatriz Furiosa, em Mad Max - Estrada da Fúria

Theron e Boutella: boas atuações além das cenas de sexo entre elas
Se pararmos para analisar, só há duas atrizes no longa: as duas são belas e representam a loira fatal e a morena sensual; e é óbvio que as duas se pegam. Para perceberem o quanto isso é chato, um dos comentários que ouvi ao sair da sala foi "a cena das duas na cama foi a melhor coisa do filme". Viu só? Tudo se reduziu ao prazer de ver as duas em cenas quentes, infelizmente. Charlize foi fundo na composição da personagem, fazendo ela mesma a maioria das cenas de luta e ação; até a forma que ela pega a arma é diferente da maioria das outras beldades que precisam empunhar uma arma em cena. Mas do que se lembram? Pois é.

John Goodman: o ator mais subaproveitado nesse elenco de estrelas
Portanto, eu estou realmente dividida com o filme. Gostei bastante, principalmente pela estética e ritmo de ação; mas os pequenos detalhes se acumularam tanto que não consegui superá-los. Esperava muito mais do que o que foi entregue, principalmente ao ver os nomes de peso do elenco, como Toby Jones e John Goodman, e pouco os vi em cena - mas ainda assim, o resultado foi aceitável. A estória, baseada na HQ de Anthony Johnston, The Coldest City, deve agradar ao grande público - especialmente aos fãs de ação. Para mim, foi uma experiência divertida que não vai ficar na memória.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Torre Negra


A Torre Negra (Dark Tower, 2017) é um longa baseado na saga homônima de Stephen King, não necessariamente no primeiro volume dos sete que a compõem. E aí já começou aquela sensação de incômodo que permeou toda a duração do filme. Não consigo sacudir a impressão de que quem montou o roteiro acabou sem saber o que fazer com tanta informação para pouco tempo de tela. Resta saber porquê não decidiram antes se condensavam toda a estória em um único filme épico (o que eu acho quase impossível) ou resolveram apostar de cara em uma franquia.

Roland (Elba) e Jake (Taylor): o encontro de dois mundos - literalmente

Começamos acompanhando Jake Chambers (Tom Taylor, excelente) e seus estranhos pesadelos com uma terra devastada e experimentos com crianças. A coincidência desses sonhos ruins com estranhos e cada vez mais frequentes terremotos faz a família do fragilizado Jake acreditar que ele precisa de ajuda psiquiátrica. Ao perceber que ao invés de ser mandado para uma clínica ele seria, na verdade, raptado pelos vilões de seu sonho, Jake resolve fugir e buscar ajuda com o único em quem sentia que podia confiar: um Pistoleiro. Na outra dimensão, Jake encontra Roland Deschain (Idris Elba), o último Pistoleiro vivo. Amargurado por perder todos a quem amava pelas mãos do Walter (Matthew McConaghey), o terrível Homem de Preto, Roland vaga pelo seu mundo destruído atrás de vingança. Quando seu caminho cruza com o de Jake, o destino dos dois está selado. Um vai precisar ajudar o outro a encontrar seu caminho. E é exatamente nesse ponto - o mais importante da trama, diga-se - que o filme falha.

McCounaghey interpreta o vilão Walter, mais conhecido como o "Homem de Preto"
Tem muita coisa errada nesse filme, e mesmo quem não conhece a obra por completo (como eu) percebe que tem algo estranho na tela. Há uma mitologia que não é explicada e acaba sendo pouco explorada (o que dificulta muito para que o público se encante e se interesse) e a ação corrida não deixa brecha para se apegar aos personagens. O vilão, aliás, é um sério engano: a figura nitidamente encarno o papel da Morte e deveria ser sombria e má, mas a forma escolhida para mostrar sua influência sobrenatural sobre os outros é risível. De um status sobrenatural, a vilania acaba caindo para um clichê (quase literal, diga-se) de "vilão que tira doce de criança". A audiência que não conhece minimamente os personagens não vai compreender os laços profundos e complexos que unem o Pistoleiro e o Homem de Preto, nem os que acabaram de ser criados entre o Roland e Jake. Confesso que li o primeiro volume para não chegar boiando no cinema e saber pelo menos a origem das coisas - e quase nada do que eu li aconteceu ali.

Cenas de ação: muito malabarismo e pouca emoção
Bem, se eu que não sou fã achei que tudo estava meio "nada a ver", eu imagino a revolta que vai causar nos verdadeiros fãs da saga. Muitas soluções apressadas nos fazem questionar a verossimilhança dos argumentos, muita coisa soa muito falsa - e olha que a gente está falando de um universo multidimensional com seres monstruosos e mágica envolvida, mas até para que isso exista algumas regras precisam ser obedecidas. A gente já viu bala ser congelada no ar e até fazer curva para atingir um alvo, e a gente até se empolgou com essas coisas - mas aqui, infelizmente, o mesmo efeito não é alcançado. Eu fiquei realmente brava por não ter conseguido me empolgar com nenhuma cena de ação - além de achar bem canastrona a interpretação de McCounaghey e muito apática a de Elba. Nenhum dos dois conseguiu transmitir o carisma que esses personagens precisam ter.

Uma pequena demonstração do que eu falei sobre a atuação de McCougnahey e dos malabarismos especiais
A quem não está interessado em mergulhar no universo, sobram a tensão inicial com o drama sobre Jake, a atuação do pequeno Tom Taylor e, mais para o fim, algumas piadinhas bem colocadas. Uma pena não terem pensado em um roteiro firme, com propósito definido, e o que chegou a nós foi um produto meio remendado - quase como um trabalho enfim finalizado porém sem muita convicção. Uma pipoca bem morna, daquelas que a gente só termina de comer porque já tá quase no fim mesmo.