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segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Círculo


A sensação ao final de O círculo (The circle, 2017) é de que podia ter sido melhor. Uma premissa ótima, que leva a uma reflexão mais profunda sobre como usamos nossa tecnologia - ou melhor, sobre como não percebemos como a usamos. Voltado para um público mais jovem, é da mesma seara de filmes baseados em livros young adult e que mostram uma verdade cruel para a galera meio desatenta, mas não deixa de ser interessante mesmo para os mais experientes.

Mae Holland (Emma Watson) é uma jovem como qualquer outra: trabalha num emprego ruim enquanto sonha com uma oportunidade de ajudar sua família. Quando sua amiga Annie (Karen Gillan, de Doctor Who e Guardiões das Galáxias) consegue uma entrevista de emprego n'O Círculo, ela sente que essa é a chance da sua vida. A empresa parece ser o sonho de qualquer trabalhador: clima descontraído, muitos outros jovens criativos e empolgados, viagens a lugares descolados, muita tecnologia envolvida. Apesar de assustada com a quantidade de informação e com o volume de trabalho, ela consegue se sair muito bem logo na primeira semana. E quanto maior é a responsabilidade sobre os ombros dela, mais ela quer se dedicar e se provar capaz. Porém Mae não desconfiava do quanto a empresa iria exigir dela - literalmente.
Mae (Watson): mergulhando de cabeça no mundo das redes sociais
Empenhada em se manter no emprego por conta dos ótimos benefícios, especialmente os médicos por conta de seu pai Vinnie (Bill Paxton, em seu último filme), Mae se destaca por sua eficiência. Encantada com as novas possibilidades que a a tecnologia e o pensamento progressista de Bailey (Tom Hanks, excepcional - como sempre), ela sente-se ainda mais responsável pelo programa, principalmente pelas oportunidades de mudança na vida de pessoas como ela. Mas o que ela não percebe é o quanto essa dedicação vai lhe custar. Os efeitos sobre Annie e Mercer (Ellar Coltrane, de Boyhood - da infância à juventude), seus melhores amigos, são o alerta para que ela abra os olhos: nada é tão perfeito quanto parece.

Annie (Gillan) ajuda Mae a entrar para o Círculo: preço alto demais para pagar pelo sucesso
É interessante ver como Mae se dá conta aos poucos do quanto ela se afastou das pessoas mais importantes pra ela e fazer um paralelo com nossas próprias vidas. Quantas vezes nos acostumamos a ter encontros virtuais e isso nos parece tão natural quanto falar ao vivo com alguém - sendo que esse contato não tem nada de natural? Quantas vezes nos dedicamos mais ao trabalho do que às nossas amizades e família? O quanto nos expomos, espontaneamente, sem nem perceber? O quão benéfico e altruísta pode ser um produto comercial? Na era do clicar e aceitar regras sem lê-las, muitas vezes nem pensamos nisso. 

Hanks: carisma e experiência fazem o filme valer a pena
Mas apesar dessa reflexão claramente importante para nós, o longa demora a engrenar - e é o carisma de Tom Hanks que salva tudo. A gente acredita porque a galera topa trabalhar tanto só para ficar mais perto dele - ou ser, um dia, como ele. Ele é aquele chefe inspirador, que é bacana, que ouve os seus funcionários, que recompensa boas ideias - obviamente, tudo até a página 2. E isso é o que é mais fascinante de observar: a sutileza como Hanks trabalha a mensagem subliminar, aquilo que só os olhos conseguem expressar. Aqui vale dizer que os anos de experiência influenciaram e muito no resultado, mas a outra única personagem a apresentar esse extra foi a Annie de Gillan. 

John Boyega teve muito pouco espaço para que seu personagem, Ty, pudesse ter relevância
Emma Watson é boa com dramas, mas a mim faltou um tanto de deslumbramento de Mae ao chegar à nova empresa. John Boyega (o Finn de Star Wars - O despertar da Força) tinha um papel teoricamente importante, mas não houve espaço para essa importância na trama - e eu culpo inteiramente o roteiro, que acabou por valorizar a adaptação de Mae e passou como um rolo compressor pelas nuances dos personagens até chegar ao final apressado. A compreensão do filme não fica prejudicada, mas a experiência de interpretação fica. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Garota ocidental - Entre o coração e a tradição

Baseado em uma história real, A garota ocidental - Entre o coração e a tradição (Noces, 2017) é um olhar mais aproximado de um dilema cotidiano. Um trecho da vida de uma adolescente muçulmana prestes a se casar obrigada reflete muito sobre mais do que apenas a questão da religião. A transição da adolescência, a mulher na sociedade, as escolhas que fazemos, a busca pela verdadeira identidade, as relações humanas, a expectativas versus a realidade. 



A protagonista Zahira (Lina El Arabi) é uma jovem de 18 nos que, como qualquer adolescente, tem inseguranças e incertezas norteando as escolhas mais importantes de sua vida. Em busca de sua verdadeira identidade, acompanhamos os momentos que antecedem a decisão mais importante de sua vida - casar-se e assumir a identidade de sua família paquistanesa ou negar-se a isso e viver a própria vida como qualquer outro jovem?

Zahira (El Arabi): em busca da identidade

Desde o início o filme é tenso: acompanhamos Zahira em uma entrevista, que depois descobrimos ser de uma clínica de aborto. Ali é possível perceber todo o drama que uma decisão desse porte envolve: a sensação de responsabilidade sobre uma outra vida, uma visão do futuro com (ou sem) a nova vida, as pressões externas da família e da sociedade, a falta de apoio do companheiro. Uma síntese brutal em poucos minutos de filme, e logo compreendemos o mundo da jovem.

As irmãs Zahira e Hina (Marion) tem o diálogo mais marcante: "É claro que é injusto. Somos mulheres."
A família é de origem paquistanesa e de religião muçulmana, e apesar de estarem habituados a viver em outro país - que ofereceu melhores oportunidades - os costumes devem ser preservados. Com isso, ela deveria "corrigir o erro" de ter sido apenas uma jovem adolescente e logo casar-se com um dos pretendentes que seus pais escolheram. Quanto antes, melhor. Apegada à família, principalmente aos irmãos Amir (Sébastien Roubani)  e Amara (Rania Mellouli), ela oscila entre sua intensa vontade de viver uma vida normal e o peso que a tradição tem sobre a vida da mulher que segue a tradição. 

Amir (Roubani), o irmão de Zahira: os costumes afetam a todos, porém de forma diferente

A nós, espectadores, fica claro o quanto a jovem gostaria que houvesse uma saída, um meio-termo onde escolher por uma vida para si própria não significaria perder tudo o que mais amava. E nos dói ser apenas testemunhas dos fatos. Dói não haver saída. A forma como o enredo se desenrola deixa claro que o fim será amargo, não importa se terminando bem ou mal para Zahira. O tom melancólico (sem ser melodramático) está no olhar da jovem, e o trabalho da jovem atriz Lina El Arabi foi simplesmente brilhante: construiu Zahira como uma jovem forte, capaz de lidar com intensas emoções e decisões, mas com uma alma jovem, alegre, divertida. Aliás, o elenco inteiro está espetacular, transmitindo muito do que não é dito no olhar - e dou todo o crédito para a sensibilidade do diretor Stephan Streker.

O olhar de Zahira diz o muito mais do que qualquer palavra

As mudanças bruscas de atitude da jovem refletem o que é ser adolescente, mas também influenciam no ritmo e na intensidade das reações desse universo onde ela vive. Há muito pouca margem de liberdade sobre várias questões na vida de Zahira, e a difícil fase da adolescência fica ainda mais complicada com o peso extra com o drama familiar. É um filme bonito com um peso enorme, e o silêncio ao subir dos créditos é reflexo do impacto sobre nós.

Não é um filme fácil de digerir, embora seja fácil se encantar com ele. Um filme que marca pela forma direta com que olha nos olhos do espectador e pede para ser visto, notado, e sobretudo pede compreensão ao invés de julgamento - porque se não existe isso, todos só tem a sofrer. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Múmia


A múmia (The Mummy, 2017) é o filme de estreia do Dark Universe - ou Universo Sombrio, como queiram - da Universal. E, devo dizer, é um bom primeiro passo. O projeto promete reunir os maiores monstros em um único pacote, com o personagem Dr. Jekyll (interpretado por Russel Crowe) de O Médico e O Monstro, capitaneando uma organização secreta que combate os maiores males da Terra - e a múmia foi o primeiro deles.

Logo no início vemos Ahmanet (Sofia Boutella), aquela que seria destinada a ser a faraó, ser “traída por seu pai - que tivera um filho com sua segunda esposa. Tomada pelo ódio, a jovem princesa faz um pacto com Set, o Deus da Morte, para obter poder e controle. Antes que o ritual fosse completado, porém, ela é impedida. Mumificada viva, foi mantida presa pela eternidade em um sarcófago cujo paradeiro se perdeu no tempo.

Nick Morton (Tom Cruise) e seu amigo Vail (Jake Johnson, de New Girl) são dois soldados americanos que se aproveitam de estar no front iraquiano para lucrar com venda de relíquias no mercado negro. Ao roubar o mapa de sua colega de trabalho, a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis) e de acidentalmente deflagrar um conflito com uma célula rebelde, o trio é destinado pelo coronel Forster (Courtney B. Vance) para investigar o que encontraram. Enquanto Jenny tenta compreender aquela estranha descoberta - o que um sarcófago egípcio estaria fazendo tão longe de casa, e sob tanta proteção espiritual? - Nick acaba por desencadear algo maior do que eles poderiam prever: liberando Ahmanet de sua prisão espiritual, ele se torna amaldiçoado - e ela vai precisar de ajuda para cumprir sua vingança.

Basicamente, o roteiro é correto: introduz muito bem a história da múmia, sua maldição e suas terríveis possíveis consequências, além de fazer muito pelo Dark Universe em si: revela o suficiente para deixar o público curioso com a organização e os futuros monstros sem revelar demais. Mas como um filme isolado, A Múmia tem cara de “mais do mesmo” - ou "mais um filme do Tom Cruise". Aliás, quando será que o veremos salvando o mundo sem ter que literalmente fugir correndo (em movimentos de técnica perfeita) de uma destruição poderosa? Fica aí o questionamento. No máximo, conseguiu mesclar melhor terror e comédia do que a maioria. Novamente os efeitos especiais são superestimados e os sustos gratuitos estão lá para satisfazer a plateia que quer pular da cadeira (embora eu realmente não compreenda como a maioria ainda se assusta com os clichês de terror).

A dupla principal tem ótima química, especialmente por conta de Johnson - e o mesmo não pode se dizer do casal Morton-Halsey. Ela, aliás, é a mais fraca do elenco (eu não comprei o romance meia-boca deles dois), e fica muito difícil ter presença perto de um inspirado Crowe fazendo a gente grudar na cadeira com seu Dr. Jekyll/Mr. Hyde. Ele é a melhor coisa do filme, e foi acertadíssima a escolha do ator - e personagens - para ser o elo entre as futuras produções. No fim, o filme é divertido e deve agradar ao público - e eu realmente espero que arraste multidões para o cinema, pois quero muito ver o que vai ser daqui pra frente!

P.S.: assisti ao filme em uma sessão especial na nova sala do UCI New York City Center, na Barra da Tijuca. O motivo? Essa é a primeira sala 4DX do país. Uma experiência única, com certeza: os bancos vibram e se mexem conforme o que se passa na tela, ambientando o público na cena. Então, se tem uma ventania na telona, vai ter vento na sua cara também; se o carro está passando numa estrada esburacada ou fazendo curvas fechadas numa cena de perseguição em alta velocidade, sua cadeira vai sacudir exatamente como se você estivesse dentro do carro. Um barato! E até água eles tem, seja pra gotejar na sua cara quando entra em uma caverna escura e gotejante ou borrifar na sua cara quando algo vier “te atingir” de frente.

Se neste momento você pensou “ai, meu penteado!”, não se preocupe. Há um botãozinho esperto no braço da cadeira para desligar o efeito molhado - embora todos os outros continuem funcionando. E devo dizer que A Múmia ficou muito mais divertido dessa forma. Portanto, recomendo - e muito! - ao menos uma sessão aqui: é muito divertido se sentir parte da cena. Escolha um filme de ação (para fazer valer seu ingresso), traga um pente no bolso, segure-se firme na cadeira e divirta-se!