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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dunkirk

Dunkirk (Dunkirk, 2017) é um filme de guerra onde a guerra em si é o menos importante. Humano sem ser melodramático, cumpre sua função de emocionar e fazer refletir sobre o que é estar em conflito. Misturando fatos históricos com ficção em uma linha do tempo não-linear, o diretor Christopher Nolan entregou um trabalho primoroso - e que entrou facilmente no meu Top 03 de filmes de guerra.


Fato: cerca de 400 mil soldados ingleses e aliados ficaram encurralados pelas forças alemães na praia de Dunkirk, apoiados por franceses que tomavam conta da retaguarda enquanto os britânicos esperavam apoio marítimo para retornar pra casa. Mas esse apoio era constantemente sabotado pelos bombardeiros aéreos inimigos. Num trabalho conjunto, Exército e Marinha lutavam para resgatar esses homens, mas o esforço não estava surtindo muito efeito: centenas de navios naufragados na beira da praia, de fundo muito raso, dificultavam a aproximação dos poucos navios que conseguiam chegar até o molhe (um píer, duramente mantido de pé pelos soldados). Então a Marinha passou a recrutar pequenas embarcações civis para ajudar na operação.

Tendo isso em mente, saiba que Nolan explicou tudo isso com poesia e maestria. Os pontos de vista de todos os envolvidos na operação são observados: o soldado que só quer voltar vivo pra casa, o que considera uma vergonha ter que voltar assim pra casa, o que já viu demais da guerra, os comandantes e suas difíceis escolhas, os civis com vontade de ajudar. Seres humanos, como eu e você, presos em um conflito tanto interno quanto muito maior que eles - o embate entre dominação e liberdade é pertinente ao ser humano, não é? Envolve a todos, mesmo àqueles que não querem se comprometer com política - e o que é uma guerra senão um duelo de ideias entre pessoas que não se compreendem? Quantos têm que sofrer e morrer (ou sobreviver e lidar com as consequências) antes que a briga recomece?

Um elenco que mistura a experiência de atores premiados como Kenneth Brahgnah e Mark Rylance com jovens e promissores talentos (inclusive o surpreendente desempenho de Harry Styles, cantor da boy band One Direction, de quem - confesso - eu tinha certa resistência), uma fotografia incrível e um ritmo cadenciado, alternando cenas de drama em conflitos internos e tensão ao máximo, só veio abrilhantar essa ótima estória do lado mas sombrio da nossa História.

Com certeza não passará em branco pelas maiores premiações do ano que vem, e cada prêmio será justíssimo. Uma obra belíssima, das melhores que Nolan já apresentou. Simplesmente imperdível (e, no meu caso, inesquecível).

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em ritmo de fuga


Em ritmo de fuga (Baby Driver, 2017) me surpreendeu. Não tinha visto nem ouvido muita coisa sobre ele antes de entrar na sala do cinema, mas saí com um leve sorriso no rosto e a certeza de que a vida da gente é muito mais sem-graça por não ter trilha sonora em tempo real. Dois bons filmes em um só: drama e ação, temperados com muita música boa e atuações brilhantes. Edgar Wright, roteirista e diretor do longa,acertou na mosca!

Baby (Elgort): todo esquisito, mas super eficiente quando o "dever" chama
Já no início, um grupo bastante distinto se prepara para assaltar um banco. Baby (Ansel Elgort) é um jovem piloto de fuga, que parece não se encaixar no perfil de bandido experiente - mas a aparência quase inocente do rapaz engana: mesmo mais novo que os outros três integrantes, ele tem quilometragem de sobra (e, aparentemente, tem gelo nas veias também). Com seus fones de ouvido, um par de óculos escuros e sua trilha perfeita, Baby consegue fazer milagres (loucuras?) ao volante e sempre levar o prêmio para casa. Ou seja, apenas mais um dia na vida de Baby.

Darling (González) e Buddy (Hamm): e não é que dá certo esse casal?
No esconderijo/escritório onde encontram com o cabeça da operação, Doc (Kevin Spacey), a gente começa a compreender como tudo funciona. Doc jamais repete uma mesma formação de grupo para evitar possíveis problemas, e Baby é o único que se repete nesses esquemas. Vivendo em seu mundinho de fugas da polícia, música e pouco papo, dividindo um apartamento com seu pai adotivo - um senhor doente e surdo, Baby se encontra em um momento crucial da vida: está prestes a se livrar da dívida que tem com Doc e se apaixona por Debora (Lilly James), uma garçonete sonhadora e tão apaixonada por música quanto ele. Lógico que não podia dar tudo certo, não é?

Debora (James) e Baby: amor puro e inocente como poucos
Diferente da maioria dos filmes do gênero atuais (que se preocupam em basicamente enfileirar sequências de ação mirabolantes e meia dúzia de frases de efeito enquanto o mocinho arrasa-quarteirões - dentro ou fora da lei, não importa - e encontra o amor na musa sexy), aqui temos um bom drama embutido em um filme de ação bem pensado. Tem drama, conflito e romance na jornada na dose certa para Baby se tornar um homem. A trilha sonora, como se pode imaginar, tem papel fundamental no longa: além de cadenciar o ritmo - literalmente - da ação, é ferramenta para Baby  (e, convenhamos, quase todo mundo) sobreviver ao estresse. O equilíbrio entre drama e ação é perfeito, e a atuação inspirada de todo o elenco só complementam a experiência.

Baby e Doc (Spacey): a parte dramática e densa equilibra muito bem com a adrenalina
Por tudo isso, Em ritmo de fuga é um filme que deve agradar e decepcionar muita gente. Explico: para aqueles que estão à procura de um bom filme, divertido, com trilha sonora perfeita e ótimas atuações, vai sair mais do que satisfeito do cinema; mas aqueles que procuram um filme de ação alucinante e ininterrupta podem se sentir um pouco desapontados. Eu me encontro no primeiro grupo, e considero o filme a minha maior surpresa - e um dos meus favoritos - do ano. E ainda arrisco dizer que, daqui a alguns anos, esse vai se tornar um clássico cult queridinho do público e da crítica. É esperar pra ver.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Transformers - O último cavaleiro

Quinto filme da franquia, Transformers - O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight, 2017) é sequência direta de seu antecessor (A Era da Extinção). O protagonista é Cade Yeager, vivido por Mark Wahlberg e ele continua defendendo os autobots - agora perseguidos por um esquadrão militar. Tentando salvar quantos amigos puder, acabará se envolvendo em uma trama muito maior do que imaginava - e que remete às lendas da Távola Redonda. É, você leu direito.



Já no começo descobrimos que a magia de Merlin (Stanley Tucci) é, na verdade, tecnologia alienígena: para ajudar o Rei Arthur (Liam Garrigan), ele recorre à ajuda de um autobot milenar - que lhe confere um cajado com superpoderes e se transforma em um dragão de três cabeças para lutar no campo de batalha. 1600 anos depois, um grupo de crianças consegue invadir uma área protegida pelo governo que é praticamente um cemitério de autobots. Lá encontram alguns ainda vivos, e ativam as defesas. A menina Izabella (Isabela Moner) vivia ali muito antes, e seus únicos amigos eram os robôs alienígenas - e por causa das crianças, ela perde um deles. Cade chega a tempo de salvar a turma dos militares, mas não o suficiente para salvar um dos autobots atingidos. Este lhe entrega uma espécie de medalhão, que será importante mais para a frente na trama.

Izabella (Moner): apesar de fofa, não tem muita função na trama

Enquanto isso, no espaço, Optimus Prime (Peter Cullen) está voltando para seu planeta natal: Cybertron. Lá chegando, ele vê tudo destruído. Quintessa (Gemma Chan), a rainha do planeta em ruínas, o escolhe e domina para conseguir de volta o cajado de Merlin: segundo ela, essa é a única arma capaz de restaurar Cybertron. Todo o planeta, então, se dirige deliberadamente até a Terra, o que aciona o TRF - esquadrão militar de defesa contra Transformers - sendo iminente o ataque ao nosso planeta. Com isso, uma inimaginável aliança desesperada surgirá na tentativa de defender a Terra - mas será que os Decepticons são confiáveis?

Megatron (Welker) e Coronel Lennox (Duhamel): uma aliança improvável

No meio disso tudo, Sir Edmund Burton (Anthony Hopkings) começa a por em prática o plano que guarda há muito tempo. Ao analisar as pistas com Cogman (Jim Carter), descobre que agora é o momento de agir - e só há uma coisa capaz de impedir a destruição do mundo: a união entre magia e ciência, a mesma que salvou a Inglaterra tantos anos atrás. Para isso, ele precisa da ajuda da professora Vivian Wemlbey (Laura Haddock), professora da Universidade de Oxford e especialista em história da Inglaterra.

Vivian (Haddock) e Cade (Wahlberg): romance não convence

Bebendo em várias fontes, mais da aparentemente inesgotável fonte que é a lenda do Rei Arthur, o roteiro (fraco) tenta costurar muitas ideias numa colcha de retalhos enorme e espalhafatosa - e dá muito errado. A gente ri pelos motivos errados, embora o filme seja recheado de alívios cômicos. As sequências de ação mirabolantes e vertiginosas, marca registrada do diretor Michael Bay, são a espinha dorsal do filme - e é justamente isso o que enfraquece o longa. As partes em que a trama deveria se explicar para o público são ora apressadas, ora cheias de jargões militares e tecnológicos, ora piadas um tanto forçadas. Não há tempo para se aprofundar os personagens, e mesmo os maiores Transformers ficam esquecidos.

Quintessa e Optimus Prime: tanta coisa acontece que ninguém se destaca

Ao que parece, não pode haver filme dos Transformers sem a participação de Optimus Prime e Megatron (Frank Welker), mas aqui os dois são meros coadjuvantes. Se não estivessem no longa, nem fariam diferença - qualquer outro Autobot/Decepticon poderiam ter desencadeado as tramas deles. Na ânsia de fazer o fan service, retomam personagens populares da franquia porém sem lhes dar o destaque que merecem e os novos personagens mal tem tempo de se apresentar com uma piada ou tirada genial. No fim, todo mundo soa meio como coadjuvante, sem direito a nenhum destaque pra ninguém em momento algum. Isso reflete na tela: parece que todo mundo está correndo e não sabe bem nem para onde nem porquê. É bem esquisito.  

Cade sobrevive às aventuras, mas a gente se pega perguntando: "como?"

Outra coisa que incomoda são os efeitos especiais. Assistimos ao longa em IMAX, que deveria ser o maior chamariz para qualquer filme dos Transformers, mas não fez muita diferença, não. É carro que se desmonta e nave que se desdobra e submarino (!) que faz curva, e nada disso impressiona - só faz a gente se perguntar como foi que eles (os humanos interagindo com isso tudo) não morreram ali? Para quem não sabe, eu sou dessas que compra qualquer loucura/viagem de autores de ficção (adoro fantasia, e quanto mais louca, melhor), mas há limites para tudo! Fica difícil acreditar que sobrevivemos ao ataque de Cybertron pela forma como foi mostrada nossa defesa - seja só militar, seja com a ajuda dos Transformers. O mais revoltante? O objeto mais importante da história inteira, na verdade, não tem importância nenhuma. 

Sir Barton (Hopkings) e Hot Rod (Sy): tentativas de enredo e alívio cômico do filme

Wahlberg até parece à vontade em cena, e Hopkings entrega um trabalho com excelência - às vezes ele realmente parece estar se divertindo com aquilo - mas o romance mal-ajambrado entre Cade e Vivian é desastroso. A pequena Izabella também não tem muita função, apesar da jovem atriz ser bastante promissora. No fim, o longa é confuso e distraído, deixando muitas pontas soltas para um final aparentemente poético e inspirador que não empolga nem emociona. Diverte pelos motivos errados, e dificilmente vai ficar na memória dos fãs ou agregará novos membros para o time.