3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A cura

A cura (A cure for wellness, 2017) é o novo filme de suspense de Gore Verbinski, o mesmo diretor de O chamado (2003) e dos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe. A trama conta a história de um jovem ambicioso capaz de tudo para conseguir sucesso na carreira - mas uma parte de seu passado, que ele prefere esquecer, pode atrapalhar seus planos e o maravilhoso spa nas montanhas pode não ser o que parece. 


Lockhart (Dane DeHaan) é promovido na empresa graças à morte súbita de um funcionário, e logo ele é selecionado pela diretoria para recrutar um CEO que decidiu se internar num spa nos Alpes suíços. Sob várias implicações (e possíveis benefícios) nessa jogada, ele aceita a proposta. Chegando lá, ele descobre que o local é especializado em tratamento de desintoxicação por meio da água: o castelo, construído sobre um aquífero cujas águas tem propriedades medicinais, atrai ricos de idade avançada para longas temporadas. Pembroke (Harry Groener), o chefe de Lockhart, é um desses pacientes - e encontra-se relutante em voltar para Nova Iorque e todo o estresse da sua vida fora do relaxante lugar.

Hannah (Goth) e Lockhart (DeHaan): cenário deslumbrante
Incomodado com a situação, Lockhart acaba sofrendo um acidente de carro e é obrigado a ficar por mais alguns dias até que se recupere. Nesse período, ele conhece outros pacientes, como a sra. Watkins (Celia Imrie) que também suspeita de algo estranho no lugar, e Hannah (Mia Goth) - a única outra paciente jovem no castelo. Intrigado com os boatos que ouvira sobre um incêndio que ocorrera no local há 200 anos e atraído por Hannah, Lockhart decide investigar mais sobre o castelo enquanto tenta convencer Pembroke a abandonar o tratamento. Mas o doutor Volmer (Jason Isaacs, o Lucius Malfoy da saga Harry Potter) não parece muito satisfeito com as sondagens e o comportamento de Lockhart.

Lockhart (DeHaan): tratamento forçado
O longa padece do mesmo mal que a maioria dos filmes de terror: previsibilidade. Apesar da belíssima fotografia, que brinca o tempo todo com luz e sombra e enquadramentos simétricos, não espere muito mais do que isso. Para mim, que não sou muito fã de filmes de terror, eu salvaria 75% do filme pela fotografia, pelo clima de tensão, por ter fugido do susto gratuito e pela atuação de Mia Goth como a ingênua Hannah. Os outros 25% que detonaram o filme inteiro são fáceis de listar:  demora a engatar na trama principal; todas os medos clichês são explorados em cena (até dentista e a maquininha insuportável estão ali); nudez gratuita em cenas deslocadas; solução totalmente apressada; cenas nojentas desnecessárias.

Mia Goth convence como a frágil Hannah
Mas o que mais incomoda é o tempo de duração: são quase 2h30 no cinema para ver apenas mais do mesmo, um mistério que se descobre desde as primeiras cenas (que já jogou Detetive ou qualquer outra brincadeira de "siga pistas" já mata a charada assim que ele põe os pés no spa assombrado). Altamente esquecível, pode ser um tanto indigesto pelas cenas mais nojentas na água para aqueles que tem estômago fraco como eu - porém não vai ser nada demais para quem está acostumado com filmes mais hardcore.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cinquenta tons mais escuros

Cinquenta tons mais escuros (Fifty shades darker, 2017) é a continuação da adaptação da saga literária de E. L. James, iniciada com 50 tons de cinza. Depois de um início de relacionamento conturbado - a paixão avassaladora entre Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson) teve que ceder ao estranhamento dela aos gostos "peculiares" dele - o casal tenta dar uma segunda chance ao amor.

Depois de algum tempo separados, Christian volta a procurar por Ana pedindo uma segunda chance. A mudança no comportamento dos dois é nítida: ele se esforça para tê-la de volta, ela resolve dar as cartas no namoro - algo inédito. Porém, mesmo estando felizes com a volta, Steele e Grey vão ter que enfrentar algumas situações inusitadas (e até perigosas) por conta do passado sombrio de Christian Grey.

Anastasia (Johnson) e Grey (Dornan) na cena do elevador: mais erotismo
 Seria até um bom filme se o foco fosse justamente esse: os problemas de Christian Grey. Há vários indícios de que seu sadismo é fruto de uma infância violenta, e vários fantasmas resolvem atormentá-lo agora que ele decide, finalmente, ser feliz com Ana. Mas quem ganha destaque é a insossa Anastasia e o romance do casal ainda é o ponto mais valorizado, tendo inclusive mais ênfase no erotismo - e esse é o maior erro do roteiro. Balanceando melhor o romance água-com-açúcar e cenas mais ousadas se sexo (nada muito alarmante, diga-se) com um esboço de thriller de suspense, 50 tons mais escuros não consegue disfarçar as falhas estruturais da trama porém funciona como uma peça mais coesa - mesmo que nem sempre coerente. O suspense criado e a possibilidade de um vilão na sequência (confirmada na cena pós-créditos do longa) garantem um bom gancho e um certo interesse na história.

Grey (Dornan): passado misterioso é pouco explorado
Há um contexto pesado nas entrelinhas que não é explorado, deixando personagens complexo muitos rasos e debates interessantes relegados à especulação. As queimaduras e o trauma de Grey em ser tocado podem ter várias explicações, mas tudo fica em segundo plano quando ele e Anastasia estão juntos. Talvez para atender a um pedido dos fãs, há mais cenas eróticas (ainda que com bom gosto), porém elas também são confusas. Estou errada ou Anastasia fugiu de Grey no primeiro filme por não concordar com os métodos dele sentir prazer? Então, porque cargas d'água ela pede para ele castiga-la e leva-la para o Quarto Vermelho? E ele, não estava se esforçando para fazer as coisas do jeito dela? Então porque continua controlando cada passo e não aceitando "não" como resposta? Fica bem mal resolvida essa parte.

Leila (Heathcote): atuação fraca em momento crucial
Outro fator complicador: as interpretações fracas - especialmente dos protagonistas e de Bella Heathcote como Leila (ex-submissa de Christian) - tiram todo o impacto do momento decisivo. Uma pena. Kim Bassinger (quase irreconhecível) também tem uma participação pequena como Elena Lincoln, ex-namorada de Christian, e promete vir com mais veneno na continuação - situação interessante, tomara que aproveitem melhor a personagem. Quanto ao resto do elenco, a maioria faz o que pode nas poucas chances que tem para aparecer. Marcia Gay-Harden rouba a cena toda vez que aparece, mesmo sendo tão pouco.

Continuação promete mais suspense e menos romance
Se o saldo é positivo? Acho que sim. Nesse longa, ao menos há uma história, um enredo mais denso do que só o encontro do casal e as fantasias dos dois. A trilha sonora de Danny Elfman também está ótima (mas já vimos isso acontecer em Esquadrão Suicida...), além da bela fotografia de John Schwartzman. Para ser honesta, eu achei que o diretor James Foley conseguiu fazer uma bela laranjada com os limões que deixaram pra ele.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lego Batman: O filme


Atenção, fãs do super-heroi mais sombrio da DC: esse filme não tem nada de sombrio! Diversão garantida para toda a família (e todos os públicos), Lego Batman: O Filme (The Lego Batman Movie, 2017) é para fãs e não-fãs do Homem-Morcego. Explorando com muito bom humor o mito do heroi solitário, que luta contra o crime e faz justiça com as próprias mãos, e abusando do sarcasmo e das referências nerds, o longa já se destaca como um dos melhores filme e roteiro do ano.

Os vilões: a coisa fica ainda mais feia depois
O filme começa com ação alucinante: Batman (Will Arnett/Duda Ribeiro) precisa salvar Gotham mais uma vez do plano mirabolante do Coringa (Zach Galiafinakis/Márcio Simões) para destruí-la. E ele, sendo Batman, faz isso com o pé nas costas. Porém, como sempre, Coringa consegue fugir e Gotham está livre para sofrer mais um novo ataque dos vilões mais loucos - o seu super-heroi mais famoso (e bonito, e gostoso) estará lá para salvá-la. Mas quando ele está de volta à bat-caverna, a solidão o encontra. Não que isso seja um problema, o Batman não precisa de amigos. Não é?

Quem precisa de amigos?
O conflito interno é acionado pela presença de Bárbara Gordon (Rosario Dawson/Guilene Conte) como a nova justiceira de Gotham - dentro da lei, coisa que ele tecnicamente não é, o órfão deslumbrado Dick Grayson (Michael Cera/Andreas Avancini), os sábios conselhos de Alfred (Ralph Phienes/Júlio Chaves) e o plano maléfico final do próprio Coringa. Ele sabe da relação de interdependência entre ele o morcego, e vai arrumar um jeito insanamente mirabolante (e hilário) de provar que está certo. Bem a cara dele.

O Batman fez isso com o Coringa. É óbvio que ele não vai deixar barato
É em cima dessa brincadeira, de imaginar como seria o super-heroi mais durão enfrentando a solidão e seus maiores medos, que o longa se desenvolve. Com piadas rolando antes mesmo dos créditos iniciais começarem, o filme prende a atenção desde o início. Há muitas referências a todas as fases do Batman, à Liga da Justiça, a outros filmes da DC (sim, estamos falando de Esquadrão Suicida) e muitos vilões de outras sagas. O roteiro caprichado é incrivelmente divertido, especialmente se você capta todas as referências, e bem executado. Mesmo que não compreenda as piadas nerds, nem por isso alguém vai sair da sala sem entender ou se divertir. 

Robin quase rouba a cena com sua "fabulosidade", mas o Batman é soturnamente mais maravilhoso. Sempre.
Assistimos a versão dublada, e o elenco brasileiro deu show de interpretação. Há inclusive toques brasileiríssimos, sutis demais, mas que fazem a plateia gargalhar (duvido que a piada dos cds de forró tenha sido mais divertida no original!). Pela reação dos presentes, adultos e crianças, o filme mais do que agradou - há até aqueles que afirmaram que este é o melhor Batman de todos os tempos. Se é, eu não sei, mas garanto que foi o mais divertido! Portanto, não importa o que você fizer: não deixe de assistir essa loucura, digo, essa pérola no cinema. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um dia em Nova Iorque

Gabey (Kelly), Chip (Sinatra) e Ozzie (Munshin): os três marinheiros
E depois de mais um filme estrelado pelo ator e bailarino Gene Kelly, eu acredito que me tornei fã incondicional do artista. Um dia em Nova Iorque (On the town, 1949) é uma comédia musical com números interessantes, mas é Kelly quem brilha. Nem mesmo a presença de Frank Sinatra e sua voz de veludo conseguem ofuscá-lo.


O inocente chip (Sinatra) e a agitada Hildy (Garret): um casal divertido
Três marinheiros aportam em Nova Iorque e tem apenas 24h para curtir a cidade. Chip (Sinatra) quer conhecer os muitos pontos turísticos, Ozzie (Jules Munshin) quer se divertir e Gabey (Kelly) quer arrumar um amor para passar o tempo. No metrô, ao esbarrar em uma moça que vira num anúncio, Gabey crê que está apaixonado por uma grande estrela. Totalmente fissurado na bela bailarina, decide gastar seu tempo procurando-a pela cidade. Seus amigos resolvem ajudar. Hildy (Betty Garret) é uma taxista bem "saidinha" que se encanta por Chip e não vai medir esforços para ajudar aos rapazes - qualquer coisa para ficar mais tempo com seu belo marinheiro. Já Ozzie parece que conseguiu uma bela companhia: Claire (Ann Miller) é a animadíssima antropóloga do museu e se apaixona por ele ao perceber a estranha semelhança física entre Ozzie e uma estátua de um homem das cavernas (!). Ao finalmente encontrar uma pista de Ivy (Vera-Ellen), a misteriosa garota do poster, as coisas não saem como o esperado.
Dançando no topo do mundo: loucuras por amor
O filme é um divertido passatempo, mas assisti-lo agora (em pleno século 21) traz algumas conclusões que, à época, seriam despercebidas. É muito estranho o número musical em que Claire canta que adoraria ter um homem à moda antiga - literalmente sendo puxada pelos cabelos - e as moças sendo, ao mesmo tempo, bastante modernas e independentes (principalmente para a época, sendo mais espertas que os rapazes e até pagando as próprias contas), além da paixão instantânea que o pessoal tinha naquele tempo. Mas é tudo compreensível se nos lembrarmos da época em que a obra foi realizada - e tudo é perdoado pela presença de Gene Kelly. A genialidade dele fica mais evidente quando se compara o desempenho dele com os outros dois atores em cena: é nítido ver como ele se destaca na dança e que ele nada deixa a desejar ao maior cantor americano. Aliás é fácil perceber a diferença entre o cantor que sabe dançar e atuar e o dançarino que sabe atuar e cantar. Simplesmente fascinante.

Ivy (Ellen) e Gabey (Kelly): a coreografia mais bonita do musical
Dentre os musicais, o filme fica marcado para mim como uma curiosidade. Ver Sinatra na flor da idade e dançando é pura diversão! O roteiro é simples, porém cumpre sua função de mostrar todos os talentos de Kelly e amarrar todos as pontas soltas - porém a comparação com Cantando na Chuva, outro filme com Kelly, é inevitável. Lembro até da fala da doce Cathy (Debbie Reynolds) tirando sarro de Hollywood: "se você viu um filme, já viu todos!". Como esse longa foi rodado anos antes da obra-prima musical, dá para perceber uma espécie de ensaio para o clássico - ou ainda como o clássico de 1952 é fantástico em seu sarcasmo - mas nada que impeça a gente de curtir esse longa: dá pra se divertir bastante com as trapalhadas amorosas dos marinheiros. Um dia em Nova Iorque é uma ótima pedida para uma tarde preguiçosa e uma deliciosa experiência para fãs de musicais.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood

Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood (2017) se propõe a fazer uma homenagem a um dos maiores ícones nacionais: os Trapalhões. Baseado no longa de 1981, sucesso de público rodado no auge da carreira dos quatro palhaços mais amados do país, a versão de João Daniel Tikhomiroff passeia pelos números musicais clássicos enquanto tenta atualizar a trama e o espetáculo circense para o século 21. Aqui, um espetáculo acrobático e um político corrupto substituem o circo com animais, além de acrescentar um toque atual na crítica à corrupção e ganância já existentes no original.

Didi (Aragão) e Dedé (Santana): matando as saudades da infância
Didi (Renato Aragão) e Dedé (Dedé Santana), os dois cabeças da trupe original, estão aqui para apresentar o circo Sumatra, que luta para se reinventar após a proibição do uso dos animais em espetáculos e voltar a lotar durante as noites de espetáculos. O dono do lugar, Barão (Roberto Guilherme, o eterno Sargento Pincel), só pensa no lucro - e por isso vai cair na armadilha de Assis Satã (Marcos Frota): ele planeja alugar o terreno para o prefeito Aurélio Gavião (Nelson Freitas, impagável) fazer seus comícios enquanto ganha uma grana por fora. Seus planos, porém, podem ir por água abaixo: Didi sente que esse arranjo não vai ser bom, mas só encontra negativas do dono do circo. Ele encontra forças em Karina (Letícia Colin), a filha dele que acabou de retornar da cidade e da faculdade. Juntos, eles conseguem convencer o Barão a dar uma chance para o circo: se conseguirem montar um espetáculo que seja um sucesso absoluto, ele para de alugar o terreno para outros fins.

A chegada de Karina (Colin) pode ser a única coisa a salvar o circo
Impossível não ser nostálgico ao assistir ao filme, principalmente quando Didi e Dedé estão juntos e fazendo piadas fora do roteiro - coisa muito comum à época, e que traz sorrisos genuínos nos saudosistas - mas falta algo realmente encantador na trama para empolgar. Digo isso pensando na audiência que nunca viu Os Saltimbancos Trapalhões (1981) ou que não cresceu assistindo sequer ao último programa do Didi na tv. Os musicais repaginados estão bem executados, mas falta um motivo para eles estarem lá: aí vem a brecha para o clichê “musical é um filme onde, do nada, as pessoas começam a cantar e dançar sem motivo”. Tecnicamente, foram bem feitas, mas a única que realmente me encantou foi a mais lúdica de todas: Didi e Dedé performando “Meu caro Barão” em um número sem muitos malabarismos coreográficos.

Efeitos especiais nem sempre são necessários
Por toda a trama é nítida a sensação de homenagem, porém parece que Rumo a Hollywood não conseguiu decidir-se entre um remake, uma atualização ou uma trama totalmente nova que fizesse homenagem ao original. O subtítulo e a sequência inicial (realmente divertida) me fez acreditar que talvez fossem ocorrer mais homenagens ao cinema e a outros clássicos, como no primeiro, mas a referência a Hollywood ficou só nisso mesmo. Perdido, nesse contexto, o longa traz atualizações necessárias para atrair esse público novo. Circo sempre me lembrou algo lúdico - e até os espetáculos mais modernos do Cirque du Soleil (uma das muitas referências no filme) sabem que isso é importante, e usam da tecnologia para ajudar a encantar. Na maioria das vezes aqui apresentados, poderiam ter sido substituídos por outros recursos. Perdoem-me, mas achei um tanto desnecessário o efeito especial para fazer o cachorro falar. 

Tigrana (Morais): personagem ficou deslocada na trama
Além disso, faltou trama para os outros personagens. Tigrana (Alinne Morais) era uma domadora de leões em 1981, e ficou completamente perdida na adaptação. A participação de Maria Clara Gueiros também ficou reduzida a uma esquete deslocada e uma revitalização de cena de hipnotização que não ficou tão boa quanto a primeira versão. O enfraquecimento de sua personagem carregou com ela o de outros como um efeito dominó: Luísa (Lívian Aragão), a sobrinha da cartomante/maga Zoroastra (Gueiros), não faz mais do que uma participação antes de seu número musical; Rafael Vitti e Emílio Dantas parecem dividir um personagem só e Pedro e Frank acabam resumidos a par romântico das mocinhas. Uma pena.

O espetáculo final: nostalgia bate forte
Os pontos fortes são a participação (pequena porém ótima) de Nelson Freitas, às músicas que ainda tem seu encanto e a química infalível entre Didi e Dedé - espere pelos créditos, várias cenas de erros divertem enquanto os espectadores se recuperam da emoção final. O desfecho, aliás, me lembrou um pouco as celebrações do Criança Esperança, onde sempre rola uma homenagem para o anfitrião. Emociona, é lindo, mas a gente já viu antes. Ao fim, saímos do cinema cantando as canções que tem gosto de infância. Quem sabe a nova geração surpreende e começa a fazer coro com a gente?

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

La La Land - Cantando Estações


La La Land - Cantando Estações (La La Land, 2017) é uma grata surpresa. Quem espera um musical leve, encontra; quem espera algo mais clássico, também; e quem quer algo bem moderno, não vai se decepcionar. Ora, mas como pode? Ser leve, clássico e moderno ao mesmo tempo é possível? Acho que esqueci de comentar que há um romance divertido e um drama pesado na mesma história.

Mia (Stone) após mais um teste de elenco: ossos do ofício
O longa conta a história de encontros e desencontros de Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone), os sonhos, o amor, a vida e muito mais. Ele é um músico de jazz, ela é uma aspirante a atriz. Ambos são apaixonados por sua arte e engolem os maiores sapos enquanto persistem em seu sonho. Ele é uma bagunça, um cara que acredita na beleza da música e se recusa a ceder aos padrões para algo tão banal como "sobreviver". Bagunçado, sonhador, resistente, não se importa em deixar boas oportunidades de negócio por conta de suas convicções. Ela se desdobra em testes de elenco bizarros e um trabalho de atendente numa cafeteria dentro de um estúdio de cinema. 

Sebastian (Gosling) tocando piano: poesia visual
Tudo gira encantadoramente ao som da música que embala as sequências de dança e a vida acontece exatamente como um coreografia: ação e reação se sucedem até que eles se reencontrem, se descubram, se apaixonem. Leve e ágil, como uma dança apaixonante. Mas, assim como na vida fora da telona, o casal aos poucos compreende: só o amor não basta. Amor entre eles, amor às suas artes, amor próprio. O equilíbrio é muito tênue. Numa coreografia, especialmente se for uma dança a dois, um passo errado é um desastre. Mas quem errou primeiro? Será que houve algum erro de verdade ou era só a própria dança que não era adequada aos dançarinos? Ou foram os dançarinos que não souberam dançar?
Emma Stone como Mia: excelente atuação
O filme é lindo em muitos sentidos: visual, musical, técnica e poeticamente. O elenco está excelente, com destaque para Emma Stone e sua frágil porém forte Mia. Stone encontrou o equilíbrio perfeito entre a ingenuidade dos sonhadores, a obstinação consciente dos realistas, a persistência dos corajosos e a dor dos incompreendidos. Gosling também convence, principalmente porque consegue evitar que seu personagem seja tachado de "mala" - sério, seria muito difícil conviver com alguém como ele. A sensação de ter assistido a uma história que poderia ser mesmo real traz um misto de sentimentos: leveza, tristeza, alegria. La La Land é diferente dos últimos filmes lançados, e pode agradar àqueles que curtem vários gêneros - e até àqueles que não curtem a sua principal classificação, musical. E isso é mérito do diretor Damien Chazelle, que construiu um roteiro muito bem costurado com suas paixões, cinema e jazz.

O casal protagonista: vivendo e aprendendo
A história começa num ritmo eufórico e aos poucos, conforme os personagens enfrentam a realidade e tudo ganha tons mais densos, a gente se sente oprimido e termina melancólico. Não é ruim essa sensação, aliás é um alívio perceber que ainda existem filmes capazes de mexer tanto assim com a audiência. Porém ainda fico em dúvida se o longa encontrará seu nicho. Tomo por exemplo outros longas musicais que são inesquecíveis, Cantando na Chuva e Moulin Rouge. O primeiro é um clássico inegável (e que inspirou muitos outros musicais, e recebe várias homenagens até hoje - inclusive aqui, em La La Land), o segundo renovou o gênero ao modernizar as músicas e sequências de dança. La La Land - Cantando Estações parece não se encaixar em nenhum outro padrão, então só o tempo dirá se ele também irá se tornar um marco. A julgar pelo número de indicações e prêmios recebidos, assisti-lo no cinema é ver a história acontecer.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Assassin's Creed


Baseado na série de jogos eletrônicos de mesmo nome, Assassin's Creed (Assassin's Creed, 2017) é para iniciados. Digo porque, mesmo não sendo uma jogadora - mas já tendo ouvido falar sobre  o famoso game da Ubisoft e já lido um livro da série de romances inspiradas no game - ainda achei a coisa toda muito confusa. Mas, ao que parece, o filme é bastante fiel ao universo original da Seita dos Assassinos: a luta através dos séculos para evitar que os Pedaços do Éden (relíquias sagradas) caiam nas mãos dos Templários.

Aguilar (Fassbender): o assassino ancestral de Cal Lynch
 Começando com uma linda cena de iniciação ritual na Andaluzia do século XV, vemos o sacrifício a que os Assassinos se comprometiam para usar as suas armas mais características, as lâminas retráteis, e o quão ameaçados estavam com a chegada da Inquisição Espanhola. Logo passamos a explorar a vida de Cal Lynch (Michael Fassbender, também produtor do filme) desde sua infância. Um menino destemido, acaba passando o resto da vida com ódio do pai por este ter matado sua mãe e o obrigado a fugir. Com sérios problemas de comportamento, acaba sendo preso e condenado à morte na cadeira elétrica. Depois do procedimento, ele descobre que fora parar em Abstergo - uma espécie de prisão médica, por assim dizer - e está sob os cuidados da doutora Sofia Rikking (Marion Cotillard, bastante deslocada). Sua pesquisa consiste na procura da cura da agressividade - tida aqui como uma doença causadora de todo o mal do mundo. Mas não é bem isso o que acaba acontecendo.

A execução de Cal Lynch (Fassbender): o começo

Leva um tempo até que Cal compreenda o que realmente querem dele, e também encontra poucos amigos lá dentro. O Animus, um programa de computação capaz de rastrear a memória genética e transformá-lo em uma projeção 3D, é a peça-chave para a obtenção das memórias. Ele está sendo usado pelos doutores Rikking, pai e filha, nos descendentes dos Assassinos para obter informações sobre a Maçã do Éden - artefato procurado por gerações de Templários e que conteria a chave para controlar a humanidade.

Salto de Fé: se você não sabe o que é, não vai ser aqui que vai descobrir
A trama é bastante intrincada e interessante, mas o filme não consegue superar as boas cenas de ação. De fato, essas são lutas bem coreografadas - especialmente nas cenas de batalha no passado de Cal - porém não há boa estrutura dramática no contexto. Em miúdos, o longa não se sustenta sozinho. Se o espectador não conhece previamente algumas passagens típicas do jogo, vai ficar perdido. Há pouca explicação sobre passagens tipo o Salto de Fé (que é uma habilidade do jogador, mas ela fica ali, jogada no ar sem ninguém voltar a ela) ou a memória genética, que não é bem uma reencarnação - embora fique mais fácil para nós entendermos assim. A sensação é de que estamos assistindo àquelas partes introdutórias do jogo que todo bom jogador pula para ir direto ao combate. Acho até que funcionaria, principalmente com o bom elenco escalado, mas as lacunas para os leigos deixa a sensação de incompreensão ao final.

Sofia (Cotillard): pouco à vontade em cena
Há muitas falas piegas e enquadramentos clichês, tornando um filme meio Frankenstein: as ótimas sequências da Espanha em sua clara referência à parte interativa do jogo e a estranha parte do presente-futurista, onde todos parecem perdidos e deslocados. Michael Fassbender ainda convence como um homem atordoado por um passado brutal que descobre em seus genes algo ainda mais sombrio, mas que abraça seu destino, porém a atuação de Marion Cotillard deixa claro a confusão: ela parece não saber se vai se aprofundar no drama ou abraçar a ação, ficando muito aquém do potencial da atriz.

A parte de ação é a mais interessante, mas não sustenta a trama sozinha.
Nos prós e contras, pontos negativos para o roteiro de Michael Leslie, Adam Cooper e Bill Collage que consegue demonstrar a raiz do jogo fielmente, mas deixa aquele espectador comum na mão ao não explorar alguns detalhes importantes, e para o diretor Justin Kurzel, que apesar do bom material, produção e elenco, não foi capaz de produzir um filme memorável para todas as audiências. Pontos positivos para as cenas de ação, intensas e bem coreografadas, e para o mote principal que sugere o início de uma franquia também nos cinemas. Para os fãs, um prato cheio. Resta saber se vai agradar ao público em geral.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Passageiros


Passageiros (Passengers, 2016) tinha uma ótima premissa, mas se perdeu no meio do caminho. A nave-cruzeiro Avalon está a caminho de um novo planeta-colônia, que está pronto para receber os seus 5 mil novos habitantes que estão hibernando tranquilamente a bordo da nave. Essas pessoas são, basicamente, ricaços dispostos a desbravar um novo mundo (literalmente) em busca de uma aventura - mas há também aqueles que serviriam para a instalação/manutenção do novo projeto colonial que embarcaram nessa jornada atrás de um recomeço.

É o caso de James Preston (Chris Pratt), um engenheiro mecânico. Misteriosamente, sua cápsula de hibernação se ativou muito cedo - 90 anos antes do previsto, para ser mais exata. Por mais de um ano, James tentou de tudo: contactar a base da empresa responsável pelo cruzeiro na Terra, conformar-se com o seu destino de morrer antes mesmo de chegar, chegou até a fazer amizade com a única figura minimamente humana a bordo - o interessantíssimo androide Arthur (Michael Sheen), barman do cruzeiro.

Arthhur (Sheen) serve a James (Pratt) e Aurora (Lawrence) no bar: melhor personagem
A ponto de enlouquecer, por um acaso, descobriu a cápsula de uma linda jovem. Procurando saber mais sobre ela, descobriu que ela era Aurora Lane (Jennifer Lawrence), uma escritora de Nova Iorque. Vendo seus vídeos de apresentação, identificou-se com ela - a ponto de se apaixonar. A dúvida o corroía, seria ele capaz de suportar a solidão de tantos anos à frente ou arruinaria a vida de outro ser humano apenas para que ele não tivesse que enfrentar o resto de seus dias sozinho? Bom, já dá pra imaginar a escolha que ele fez, não é? Mas as coisas complicam mesmo quando todo o sistema entra em colapso e eles tem que lutar pela própria vida - sem ter a mínima noção do que fazer.

Olhando assim, o filme parece interessante. Como disse antes, o argumento é maravilhoso. Já imaginou o desespero que seria acordar em uma nave espacial e descobrir que é o único humano acordado - e que este despertar aconteceu muito antes do previsto? O que fazer numa situação dessas, em que não dá para voltar atrás nem fazer qualquer outra coisa? Muito material de reflexão foi desperdiçado aqui para dar lugar a um romance água-com-açúcar (descupe o spoiler, achei que ninguém iria imaginar que um envolvimento amoroso entre um casal tão bonito e atraente fosse acontecer - ironia mode on).

Metáforas lindas e intensas deram lugar a um filme de ação previsível e minimamente emocionante. Uma arca de Noé à deriva, a sensação claustrofóbica de estar preso num destino sem freio e sem volta, a asséptica visão futurista do mundo dominado por máquinas, a questão vital sobre relações humanas- tudo isso dá lugar a soluções apressadas e muito mal ajambradas (quanto mais penso nelas, mais surreais me parecem) que fazem o espectador se questionar depois de subirem os créditos. O final, aliás, me deixou com raiva: piegas até o último frame, recheado de frases de efeito à la novelas mexicanas, poderia ter algum tipo de redenção - mas nem isso.

A gravidade falhou e a piscina tornou-se mais uma ameaça
Nem mesmo os belíssimos efeitos especiais puderam esconder essas graves falhas estruturais. As presenças de astros do calibre de Lawrence e Pratt (e a participação de Lawrence Fishbourne, em um personagem facilmente substituível por um comando eletrônico) não salvam o longa. Ok, existem cenas belíssimas (como a falta de gravidade quando Aurora está na piscina ou a caminhada no convés), mas é só. Havia potencial para ser um filme marco na história do cinema, mas se contentou em ser um blockbuster altamente esquecível. Com tamanhos elenco, orçamento e argumento em mãos, o filme merecia ser melhor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O blog em 2017

Para nossos queridos leitores, decidimos dedicar algumas linhas para explicar o rumo que o Dvd, Sofá e Pipoca está tomando. Calma, isso não é um post de despedida! Entendam mais como um post de balanço de 2016 misturado a um de metas para 2017.


No ano passado, nosso ano sabático, a meta era completar as nossas listas. Ao longo dos anos (linda essa frase!), um ou outro filme acabou ficando sem alguma resenha - de uma ou até de todas as blogueiras - e queremos fechar essa conta. Essa meta não foi cumprida, infelizmente, mas não desistiremos! Em 2017 seguiremos com os planos de completar os furos do passado, além de projetar novas metas e desafios para o futuro. Nos aguardem!

Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu - quem sobreviveu a 2016 sabe bem do que eu estou falando - mas algumas notícias são boas. Nós três resolvemos embarcar em outro projeto: o Roteiro Adaptado. Nesse novo blog temos uma proposta ligeiramente diferente, em que unimos duas de nossas paixões: cinema e viagens.


Resolvemos compartilhar nossas experiências no Brasil e fora dele, com algumas dicas de foto e de como montar suas viagens, mas o principal foco é buscar algum destino onde alguma produção tenha sido feita ou inspirada. Vale de tudo: livro, filme, novela, série, clipe musical... Se a gente foi, vamos contar como paramos lá e o que mais descobrimos - quem sabe você também se anima a ir visitar também?

O blog está engatinhando ainda, tem apenas 3 meses no ar - estreamos na internet em outubro de 2016. Mas o ano inteiro passado foi trabalhando em cima dele: escolher o layout, procurar pausas novas, programar viagens, revirar arquivos... É, dá trabalho, mas a gente gosta!

Então fica aqui o convite para vocês, venham visitar nosso novo projeto. E não deixem de nos acompanhar aqui, pois estamos cada vez mais antenadas com os lançamentos (já perceberam, não é?) e continuaremos nosso caminho para nos tornar cinéfilas melhores.

Feliz 2017!
As Blogueiras

Vivendo e aprendendo


A primeira versão de O jardim secreto que eu vi foi a de 1993 e já tem alguns anos. Lembro de ter ficado acordada de madrugada, lutando contra o sono, só para ver a história. Não lembro como foi que eu soube ou o porquê da minha insistência em querer ver esse filme, mas fiquei e não me arrependi. Lembro desse filme até hoje, e com muito carinho. E ainda tem Maggie Smith no elenco, então... Essa versão está guardada no coração.

Por isso estranhei um pouco a primeira versão. É bem mais sombria que a versão de 1993. De início achei que seria todo em preto e branco, e assim a mansão ficou muito mais sombria, fria e assustadora - um lugar muito mais hostil para a adaptação da pequena Mary. Mas achei ainda mais interessante, e até surpreendente, ver que isso foi um recurso estilístico, usado para causar mais impacto. O longa de 1949 é uma versão mais dura - como eram os antigos contos de fadas. A ambientação e as crianças são mais cruas, os contrastes são mais fortes. Há uma encantamento pela história em si, mas falta um tanto de magia a como estamos acostumados. Por isso é tão interessante comparar as duas versões: a história é exatamente a mesma, e, ainda assim, são filmes bem diferentes.

Em linhas gerais, seria assim: criada na Índia como uma pequena rainha, Mary Lennox fica órfã e é aceita por um tio muito estranho, que mora numa mansão aparentemente sozinho. Recluso, ele sequer vai ver a sobrinha quando ela chega. A mansão é cheia de regras totalmente fora da realidade a que estava acostumada, então a pequena Mary fica completamente deslocada. Até que ela começa uma amizade (um tanto intruncada) com Dickon, um ajudante de serviços, e começa a descobrir como é ser uma criança. Juntos, eles descobrem a entrada do jardim secreto e com ele, um mistério: porque aquele lugar tão bonito estava tão abandonado? Logo ela também descobre que não é a única criança da casa: seu primo, Colin, nunca saía do quarto porque não podia mexer as pernas. Aos trancos e barrancos, os três começam uma amizade compartilhando um segredo: Mary havia decidido reviver o jardim. Mas tudo tinha que ser as escondidas, pois seu tio não podia nem suspeitar que eles sabiam daquele lugar.


E nesse jardim vai florescer algo mais do que somente as lindas flores: a esperança renasce, amizades se fortalecem, a coragem aparece, o amor volta a colorir o mundo. A metáfora é linda e emocionante, embora mostrada de forma ligeiramente diferente nos dois longas. Uma história que fala de superações, descobertas, inocência, família, luta e perseverança para crianças, jovens e adultos. AA versão mais recente é aquele filme de fim de tarde preguiçoso, mas que te deixa com o espírito leve depois de assisti-lo; a mais antiga funciona quase como uma curiosidade - mas também vale uma conferida.