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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tempestade - Planeta em Fúria


Da seara de "filmes-catástrofe", o que a gente espera? Muita destruição em massa, cenas de fuga alucinante e um final feliz. Tempestade - Planeta em Fúria (Geostorm, 2017) tem tudo isso, mas parece que a receita desandou em algum ponto. Para começar, acho que essa história do "único homem capaz de resolver os problemas e salvar o mundo" já está muito batida e fora de uso. A era dos lobos solitários defensores da humanidade já ficou para trás, lá em 1990/2000. No século XXI tem muito mais condições de conseguir resolver os problemas em grupo. Mas, vamos lá.

A sobrevivência do nosso frágil ecossistema depende agora da monitoria de satélites espaciais - e do bom relacionamento entre dois irmãos, Jake (Gerard Buttler) e Max (Jim Sturgess) Lawson. Max, o mais novo, precisa cuidar do gênio forte do irmão Jake, o responsável técnico da Dutch Boy - a estação espacial responsável pelo controle da rede planetária de satélites que monitoram as mudanças climáticas - porém nem sempre é ouvido ou respeitado. Assim, Jake acaba sendo expulso do programa enquanto Max é promovido, o que racha a já frágil conexão entre eles.

Já imaginou uma cidade no deserto completamente congelada?
Mas um misterioso incidente metorológico acontece: uma cidade afegã foi completamente congelada, causada por um aparente defeito no satélite que a monitorava. Pouco tempo depois foi a vez de Hong Kong sofrer com uma aparente explosão de gás desproporcional (provavelmente causado pelo satélite da cidade), e a suspeita de um defeito crítico na Dutch Boy leva o conselho do presidente Palma (Andy Garcia) a ceder e chamar Jake de volta. Mesmo receoso de reencontrar o irmão após anos sem falar com ele, Max recebe de Dekkom (Ed Harris), o Secretário de Defesa, a missão de convencê-lo a consertar a estação, pois era primordial para a política do país entregar para o Conselho Internacional um aparelho funcional.


Depois de certa relutância, Jake aceita voltar à estação que ele praticamente criou. Ao chegar na estação, as coisas estão um pouco diferentes: a comandante Ute Fassbinder (Alexandra Maria Lara) apresenta a nova equipe e as novas circunstâncias da Dutch Boy. Alguns acidentes envolvendo a tripulação levam Jake a pensar em uma espécie de sabotagem - e ele vai precisar da ajuda do irmão para conseguir descobrir quem está por trás disso e impedir que as alterações criadas pela estação espacial desencadeiem uma reação catastrófica que pode dizimar a vida na Terra.

A tripulação só podia assistir à catástrofe na Terra: o tempo para salvar o mundo está acabando

Então temos um cenário bastante alarmante e uma boa premissa, com pano de fundo político intrigante e um elenco estelar. Mas a coisa toda é tão previsível que nem as piadas (supostamente inseridas para aliviar a tensão inexistente) servem para divertir. De fato, as gracinhas feitas com filmes e personagens anteriores de Buttler (como batizar os satélites de "rock'n'rolla", mesmo nome de um famoso filme em que ele era protagonista) seriam mais bem aproveitadas se houvesse algo mais prender a atenção da gente. As falas são piegas, as atuações são sofríveis - especialmente as de Abbie Cornish, que faz Sara Wilson (namorada de Max e chefe de segurança do presidente Palma) e Andy Garcia, que está tão burocrático que chega a incomodar. Nenhuma das "viradas" do roteiro é realmente surpreendente. 

Ute (Lara) e Jake (Buttler): unindo forças para salvar o planeta
Apesar disso, os efeitos especiais apocalípticos são muito bons, e isso eu preciso reconhecer. A destruição do planeta (e aqui incluo uma impagável cena de catástrofe na praia de Copacabana) é caprichada, mas só isso não é o suficiente para fazer o filme funcionar. De fato, acho que o maior problema é que o diretor e roteirista Dean Devlin quis passar uma mensagem maior em um filme de ação, mas não conseguiu atingir o alvo. A ideia de que um inimigo em comum (no caso, a natureza em fúria) seria um elo para redimir a humanidade já está mais do que desgastado e a trama política que deveria sustentar o arco mais denso é frágil demais. Tempestade - Planeta em Fúria é um filme que vai passar em branco, mas que pode agradar a quem é fã do gênero.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Além da Morte


A proposta de Além da Morte (Flatliners, 2017) é ser um filme de suspense diferente. O que chega a ser uma pena, porque enquanto o diretor Niels Arden Oplev (Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Mr. Robot) se propõe a fazer o famoso "feijão com arroz" que o gênero pede de forma impeável, o filme anda com muita desenvoltura e sucesso - mas é justamente na hora do "fazer diferente" que ele desanda. O final meio esquisito do roteiro de Ben Ripley é que estraga, porque tinha em mãos excelentes produção, diretor e elenco para fazer deste, talvez, um bom exemplo de filme de gênero. 

O grupo de estudantes pesquisadores: resultados empolgantes porém perigosos
Courtney (Ellen Page) é uma estudante de medicina que sobreviveu a um acidente de carro há alguns anos, no qual sua irmã mais nova, Tessa (Madison Brydges), acabou morrendo. Enquanto faz residência no hospital universitário, ela fica obcecada pelo que acontece no pós-morte. Determinada a fazer experiências sobre o tema, ela acaba atraindo seus amigos Sophia (Kiersey Clemons, que será Iris West no próximo filme do The Flash), Jamie (James Northon, de Rush - No Limite da Emoção), Marlo (Nina Dobrev, do seriado de tv Vampire Diaries) e Ray (Diego Luna) para participarem do perigoso processo.

Como são todos médicos residentes, ela confia que eles terão sucesso em trazê-la de volta após uma morte controlada e conseguir mapear o que acontece em seu cérebro nesse período. Mesmo que uns estivessem mais assustados, outros animados, ou até relutantes, todos acabam envolvidos no procedimento. E uma vez que Courtney retorna, a maioria quer participar - principalmente porque, depois do experimento, a jovem parecia ter se tornado um gênio da medicina. Mas nem tudo são flores: os próximos colegas a passar pela experiência e a própria Courtney vão descobrir que a mente pode pregar peças muito perigosas quando ativada daquela forma.

Ray (Luna), Marlo (Dobrev) e Courtney (Page): encabeçando o bom elenco

Dito isso, preciso completar que, até aqui - com os amigos aprofundando os laços de amizade e descobrindo os riscos de se experimentar a morte controlada - o filme consegue prender a atenção. Até mesmo quando os fantasmas dos passados vêem atormentar os que passaram pela experiência é bacana: clichês como "o barulho na casa quando o personagem deveria estar sozinho" e as alucinações que eles sofrem são bem feitas, criando o clima perfeito de tensão e não tem nada de gratuitas. Ponto muito positivo. O problema aqui é a resolução final. Soa boba, depois de tudo o que eles passaram até ali - além de frustrar o espectador por não entregar o banho de sangue prometido pelo crescente clima sombrio. Uma pena.

Kiefer Sutherland faz uma ponta como o médico professor do grupo: homenagem ao longa de 1990
O elenco, encabeçado por Page, Luna e Dobrev dá conta do recado. A tímida participação de Kiefer Sutherland é quase desnecessária, porém é uma homenagem à versão original de 1990 do longa (Linha Mortal, para nós), que tinha ainda Julia Roberts, Kevin Bacon e William Baldwin sob direção de Joel Schumacher (cujo trailler, aliás, me deu vontade de ver essa pérola). No fim, Além da Morte é um bom passatempo, mas será facilmente esquecido após o fim da sessão. 

sábado, 14 de outubro de 2017

Pequena Grande Vida



Contando com muito bom humor, Pequena Grande Vida (Downsizing, 2018*) é um olhar crítico sobre a hipocrisia. Em tempos de Trump no governo americano falando em "tornar os Estados Unidos grande de novo" e as tecnologias e discursos engajados - porém pouco eficientes - para salvar o planeta da destruição, o diretor Alexander Payne não tem medo de pôr o dedo na ferida.

Após uma experiência científica revolucionária - pela primeira vez a ciência conseguiu reduzir pessoas e animais sem que houvesse qualquer prejuízo na saúde destes - o mundo mudaria para sempre: se toda a população aceitasse diminuir, não haveria mais problemas com escassez de alimentos. Vivendo em cidades menores, produzindo menos lixo, consumindo muito menos do que pessoas de tamanho normal, essa seria a solução para os problemas do mundo. Certo? Vejamos.

Dez anos depois, a miniaturização já é uma realidade. Várias comunidades espalhadas pelo mundo são prósperas e vendem a ideia do "sonho americano" como água no deserto - afinal, o pouco dinheiro no mundo grande se torna uma fortuna quando você aceita se miniaturizar. Quem não quer viver uma vida de luxo, segurança e conforto? Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig) são um casal como outro qualquer. Empolgados pela iniciativa de fazer o mundo melhor e pela oportunidade de finalmente conquistar uma vida boa, eles aceitam o processo. Mas nem tudo acaba sendo como eles imaginaram.

E aí temos esta pérola: uma pequena alfinetada, polida e redondinha, para a gente entender que nem sempre as boas intenções são suficientes - e que nem sempre o que parece altruísmo o é de verdade. As doses generosas de crítica bem humorada nos levam a refletir sobre as relações humanas em vários níveis, e o quanto nossas ações são mais importantes que nossa palavra. De forma leve e divertida, o Payne nos faz pensar sobre assuntos tão pertinentes - e isso foi o que mais me encantou neste longa.

Em um filme recheado de participações especiais (e algumas caras conhecidas do público, como o ator português Joaquim de Almeida e o eterno Dawson do seriado, James Van Der Beek), as atuações de Hong Chau como Ngoc Lan Tran, uma ex-prisioneira vietnamita, e de Christoph Waltz como Dusan, o novo vizinho  excêntrico de Paul, são a cereja do bolo. A partir do momento em que a personagem de Chau entra em cena, o filme é dela. Waltz é um caso à parte: basta um sorriso e ele já disse a que veio (desculpem, sou fã assumida - mas ele é maravilhoso mesmo.) Matt Damon também não fica atrás, dando conta de seu "ingênuo homem-comum" com bastante credibilidade.

Pequena Grande Vida é um filme diferente, que traz elementos de comédia normal disfarçando uma reflexão profunda sobre a sociedade e o futuro da humanidade. Com certeza vale a pipoca do fim de semana.

*O filme terá exibição nesta edição do Festival do Rio nos dias 13, 14 e 15/10. Depois dessas, só no lançamento oficial em janeiro de 2018. Se estiver na cidade, não perca a oportunidade!

domingo, 8 de outubro de 2017

A Forma da Água

Eu só tenho a agradecer a Guillermo del Toro por esse presente. É assim como me sinto depois de assistir a essa delícia de filme que é A Forma da Água (The shape of water, 2018). O longa estreia em janeiro de 2018, porém eu tive o privilégio de assistir à primeira exibição dele durante a abertura do Festival do Rio 2017. E ele já se tornou um dos meus favoritos de todoa os tempos.

No longa, del Toro nos conta uma linda e emocionante fábula: Eliza Esposito (Sally Hawkings) é uma mulher comum que tem um problema de fala, o que não a impede de ter uma vida normal. Alternando as visitas a seu recluso vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) e seu turno noturno de trabalho em uma base científica secreta, ela sobrevive apesar das dificuldades. Um dia, porém, um novo projeto científico chega à base e sua vida mudará por completo. Uma criatura capturada na Amazônia foi levada para lá afim de ser estudada, e uma improvável amizade entre eles nascerá.

Sobre essa premissa, del Toro discute profundos temas como sexualidade, beleza, auto-conhecimento, humanidade e divindade, poder, racismo e preconceito - tudo azeitado com muito bom humor e delicadeza. O longa é o que eu descreveria como um poema e um sonho combinados, um surrealismo poético que emociona e alcança o público como poucos. Seus personagens são tão cativantes em suas diferentes personalidades que é quase impossível não se apegar a eles.

Todo o elenco é magnífico, e as atuações delicadas só reforçam a empatia com os personagens. Eles parecem humanos, reais, mesmo que estejamos presenciando um conto de fadas. Destaco as interpretações de Hawkings e Octavia Spencer, que fez de sua Zelda um delicioso contraponto à quieta amiga de trabalho. Michael Shannon também merece ser mencionado por dar vida ao vilão Strickland, um homem que consegue resumir em suas contradições o que há de pior em nossa sociedade.


Nem preciso mencionar o primor que é a fotografia e produção de arte, que nos mergulha (com perdão do trocadilho) no universo meio mágico, meio Guerra Fria. Um belo subtexto aqui, pois o tempo era de resistência à mudanças enquanto havia esperança de um mundo melhor, mesmo que as ações fossem regidas pelo medo e nem sempre terminassem como se esperava. Aliás, há muito o que se ler nas entrelinhas desse filme.

Uma belíssima obra, de uma sutileza e impacto como poucos filmes recentes conseguiram trazer à tela - e à tona. A Forma da Água é o que eu acredito que o cinema é: poesia e emoção, que faz pensar e repensar nossa forma de ver o mundo, de agir. Ansiosa para vê-lo novamente. Vem logo, 2018!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049


Sabe aquele medo de ver uma sequência que estraga o original? Pois esqueça. Blade Runner 2049 (2017) é daqueles filmes que vão agradar aos fãs mais fervorosos e ainda deve arrastar mais um monte de gente para o universo futurista e decadente dos androides. Denis Villeneuve homenageia o original de Riddley Scott, mas não perde o foco quase dissecador em seus protagonistas. Assim, o questionamento iniciado no primeiro longa é ampliado: o que é ser humano?

K (Ryan Gosling) é o melhor caçador de androides em atividade e está em seu ambiente de trabalho. Procurando pelos últimos exemplares dos Nexus rebeldes (androides que se recusavam a ter prazo de validade), ele encontra uma pista que poderá mudar para sempre a História. Pressionado por sua chefe a eliminar evidências antes que o caso se espalhe, acaba sendo vigiado pela empresa que fabricou os androides com "defeito": eles tem outros planos para a descoberta que K fez.

K (Gosling) e Joi (de Armas): um amor complicado
O longa tem um ritmo diferente dos atuais filmes de ficção científica: contado de forma linear, de modo a deixar o público captar as entrelinhas das cenas ao invés de bombardeá-lo com informações e palavras difíceis de entender. As longas pausas entre diálogos nos mergulham na paisagem caótica e na emoção dos personagens, o que para mim foi um acerto enorme. Essa forma mais lenta, noir, de narrativa pode cansar o espectador mais ansioso por ação. Superada essa barreira, o filme é um prato cheio para conversas pós-sessão.

Metalinguagem na fotografia: homenagem ao original, porém mudando ligeiramente o foco

Eu senti como se o universo tivesse se expandindo: questionando os questionamentos, a dúvida é a única certeza. O que é verdade naquela rede de informações? Como androides podem ser tão ou mais humanos que os humanos? (aliás, ainda existem humanos na Terra ou todos já abandonaram o planeta arruinado para a nova espécie?) Metáforas profundas e belas sobre relacionamento, sentimento, a angustiante busca pelo verdadeiro conhecimento de si próprio. Tudo isso em diálogos curtos e longos takes de tirar o fôlego: a fotografia é soberba, mesclando luz e escuridão, dia e noite; detalhes incríveis e desfoques intencionais - como se nos dissesse "você não tem uma visão clara da situação". No mínimo, vai ser impactante.

K e Luv (Hoetz): criaturas indo encontrar seu criador
O elenco está ótimo, com todos os atores entregando atuações primorosas - com destaque para Dave Bautista (conhecido por ser o Drax de Guardiões das Galáxias, prova que não é só músculos e piadas em sua pequena porém importante participação), Ana de Armas e sua apaixonada Joi (uma holograma), e Sylvia Hoeks, que faz de sua androide Luv uma das melhores coisas desse filme. A exceção é Jared Leto. Pode parecer perseguição ou implicância minha, mas Leto não acertou o tom (de novo) como um vilão. Quem já o viu em Réquiem Para um Sonho ou Clube de Compras Dallas sabe que ele é melhor do que o que apresentou. Mas nem isso atrapalha o andamento do filme, que sabe segurar bem os ases nas mangas e soltar na hora certa a bomba (atômica) no colo do espectador.

Jared Leto como Niander Wallace: trejeitos ficaram artificiais, porém não comprometem o personagem

O mais interessante de Blade Runner 2049 é que ele funciona para quem é fã do primeiro longa, mas também para quem nunca viu o original. Fica bem claro que ele foi feito para (e por) apaixonados pelo longa original e pelo livro que o inspirou, mas ele se permite ser acessível para quem não os conhece. É fato que alguns detalhes vão passar despercebidos, mas o entendimento geral da estória está claro para todos - até porque o questionamento "Quem sou eu? De onde eu vim? Qual é a minha missão?" é universal. Mais do que recomendado, ele chega às telonas com status de OBRIGATÓRIO na lista de qualquer cinéfilo que se preze. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Kingsman - O Círculo Dourado

Precisei de uma pausa para apreciar a genialidade desse filme: muito além do puro entretenimento de filmes de ação, Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman – The Golden Circle, 2017) é a sequência de Kingsman – O Serviço Secreto, sucesso de 2014, e consegue ser ainda mais interessante que seu antecessor.  As críticas ao comportamento social e ao próprio gênero de filme de ação/espião estão ainda mais ácidas e divertidas, e as mais de 2h de filme passam sem que o espectador se canse – e ainda termine querendo mais.


Um aviso: como o roteiro segue com as consequências diretas dos acontecimentos do primeiro longa, essa resenha pode conter alguns spoilers (mas acho difícil encontrar alguma outra que seja 100% spoiler free). Prometo fazer o possível para não entregar demais.

Depois de salvar o mundo da destruição pelo plano maligno de Valentine (Samuel L. Jackson), Egsy (Taron Egerton) assumiu o posto de Galahad - que era de Harry (Colin Firth) - na Kingsman e segue a rotina de um espião da agência. O que ele não esperava era ser atacado por um ex-recruta, Charlie (Edward Holcroft). Ele acreditava que o rapaz tinha morrido na festa de Valentine, mas ele estava muito vivo – e com um braço mecânico, ainda por cima! Depois de uma alucinante luta para salvar a própria pele dentro de um táxi, Egsy consegue escapar e ainda chegar a um local seguro no Hyde Park. O que ninguém esperava é que o braço mecânico perdido no carro fosse capaz de hackear o sistema da Kingsman. Um desastre está para acontecer: com base nos endereços encontrados ali, todas as casas de todos os agentes da Kingsman, inclusive a sede, são destruídos por mísseis teleguiados.

Egsy (Egerton): o que fazer agora?
Egsy se salva por simplesmente não estar em casa no momento do acidente, mas nenhum outro agente escapa – nem mesmo Arthur (Michael Gambon, substituindo Michael Caine no cargo) e Roxy (Sofie Cookson), a Lancelot. Arrasado, Egsy encontra ajuda no único outro sobrevivente do massacre: Merlin (Mark Strong, excelente). Juntos, eles precisam por em ação o protocolo final. A ajuda vem do jeito que eles menos esperavam: uma agência irmã, nos Estados Unidos, seria a última saída. O contato, porém, não foi muito amigável a princípio.

A Statesman é a agência de inteligência secreta americana, e se esconde sob a fachada de uma destilaria. Passada a desconfiança inicial (que inclui uma surreal e divertida sequência de “reconhecimento” à americana, do tipo “atire primeiro, pergunte depois”), ambas agências passam a trabalhar juntas com a pouca informação que Roxy conseguiu buscar: o palpite da falecida agente era de que o Círculo Dourado, uma organização de tráfico de drogas, estaria de alguma forma envolvida com o estado atual de Charlie – e, consequentemente, com o desastre que veio acontecer depois. Logo a suspeita se comprova acertada.

Os agentes da Statesman tem os melhores codinomes!
Poppy (Juliane Moore, deliciosamente macabra) se revela como a chefe da organização de um jeito bastante inusitado: num anúncio na TV, ela avisa à população que contaminou suas drogas propositalmente com um vírus e o único antídoto está sob sua guarda. O que ela espera em troca da cura é que o presidente dos Estados Unidos descriminalize o uso de narcóticos. Assim que o decreto estiver assinado, ela liberaria o antídoto para todos os países atingidos (o que seria praticamente o mundo todo). Mais uma vez cabe a Egsy agir para salvar o mundo de um maluco megalomaníaco, e dessa vez ele tem motivos mais pessoais ainda para parar Poppy.

Poppy (Moore): quem vê cara...
Como prometido, tentei segurar as melhores partes para deixar surpresas para quem for ao cinema - quanto ao personagem de Colin Firth, os posteres entregam um pouquinho do que acontece porém não vou estragar a forma como ele surge na trama. O roteiro é um primor: não há “barrigas” ou excessos, alternância de ritmo com cenas de ação e pura emoção, toneladas de sarcasmo para todos os lados (do american way of life ao cavalheirismo inglês, passando pelas relações amorosas nos dias atuais e clichês dos gêneros cinematográficos, não há perdão para ninguém) e nenhuma ponta solta. São várias as cenas memoráveis, principalmente as que têm participação especial de Elton John (essa nem foi spoiler, porque o nome dele está no cartaz!) e as que se passam na Casa Branca. Aqui vale uma dica: esteja atento ao noticiário internacional e conseguirá entender as piadas internas mais escrachadas e bem executadas que eu já vi na vida. Um adendo: Pedro Pascal (o eterno Oberyn, de Game of Thrones) faz uma participação muito maior do que eu esperava - e é hilário ver como um não-americano absorve e se orgulha das "americanices".

Agente Whisky (Pascal): representando o american pride (!)
Há também algumas coisas um tanto questionáveis, como a sequência na tenda do show no Festival de Glastonbury, por exemplo. Mas se lembrarmos que esse é um filme que tira sarro das coisas justamente exagerando e carregando nas tintas, percebemos que o grotesco ali foi usado para incomodar mesmo – para nos fazer se perguntar “nossa, mas era mesmo necessário?” não só ali, naquele momento, mas em todos os outros em que aparecem em outros filmes. Simplesmente genial.

Se você não acha que um lança-míssil disfarçado em maleta de grife é um exemplo da sátira descarada, então precisa rever seus conceitos
A sessão a que assistimos foi em 3D, porém acredito que não tenha sido necessário. Quem já viu o primeiro longa, sabe que a ação alucinante é uma marca registrada da franquia e não precisa de efeito nenhum além do que já está em cena. A franquia, aliás, que promete ser expandida – e o público agradece. Pessoalmente eu não conheço os quadrinhos que inspiraram essa maravilha cinematográfica, mas acredito que o diretor Matthew Vaughn tenha feito um bom trabalho ao traduzir novamente os quadrinhos para a telona. Vaughn também merece créditos por conseguir entregar um trabalho tão denso com tanto bom humor; um produto que vai além do entretenimento por si só – e que tampouco falha em ser só entretenimento. Aproveitando o tom do filme, me arrisco a um trocadilho super clichê: um tiro certeiro, em todos os alvos. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Columbus

Columbus (Columbus, 2017) é o típico caso de um artista que se deixa inspirar pelo ambiente e o transborda na sua arte. O diretor coreano naturalizado americano Kogonada se apaixonou pela cidade de mesmo nome e dela sentiu fluirem tema, estória, personagens. E que conflitos e reflexões uma visita a uma pacata cidadezinha no interior dos Estados Unidos pode refletir! É nesse delicado viés que o filme transita.

Casey (Haley Lu Richardson, maravillhosa) é uma jovem apaixonada por arquitetura. Sua cidade é basicamente a meca para arquitetos e amantes da arte: vários prédios de influência modernista acabam por costurar a vida pacata e sonhadora da garota com a de Jin (John Cho, excelente). Ele é filho de um renomado arquiteto, que estava na cidade para uma palestra quando teve um mau súbito e precisou ficar internado. Os dois não podiam ser mais diferentes nem mais parecidos.

Uma forte amizade nasce em torno da presença/ausência dele. Casey sonha em ser arquiteta, ou ao menos uma guia de turismo especializada em arquitetura; ele não suporta mais o tema por ter sido (talvez) a única paixão de seu pai. Conforme ela se demonstra encantada e conhecedora, ele sente a evidência do quanto essa paixão que ela também reflete o afastou do pai. A diferença de idade entre eles também traz outra visão sobre a cidade, porém não da maneira que se espera. Ele não quer ficar por lá, ela não pensa em sair.

E essas diferença se evidenciam, se aprofundam e, estranhamente, os aproximam. É como se os dois fossem a versão que o outro gostaria de ser, na ilusão de que a vida teria sido bem mais fácil se assim o fora - apesar de focar evidente que não seria.

A forma delicada com que o diretor conduz a narrativa expressa o seu receio quanto ao sutil equilíbrio entre vida e morte - mesmo que dentro de si próprio - e a inevitabilidade das coisas é tocante. A fotografia não podia deixar de ser menos caprichada, especialmente em um filme que tem a forte estrutura modernista como pano de fundo e metáfora, e o elenco não podia ser mais acertado.
Columbus é um filme de arte, sutil como poucos. Não há arroubos cênicos, nem um ritmo descontruído - é a sensação da existência passando, às vezes até mesmo da perda de tempo em não fazer acontecer nada. É intenso, e pode não ser perfeito - mas é equilibrado, exatamente como a arquitetura modernista. Uma experiência diferete, especialmente para quem está acostumado a só ver blockbusters de roteiros saturados e repetitivos. Merece a sua atenção e, principalmente, a sua reflexão.